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O coelho saiu da cartola.

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"Eu tive um sonho, vou te contar. Eu me ativada do oitavo andar e era precisa fechar os olhos pra não morrer e nem me machucar."

Depois de meses curtindo ausências eu sonhei com ela. Veio chorando com um sorriso enorme nos lábios e olhos grandes e gordos que só ela possui quando chora. Olhou-me fundo como quem procura ver através do poço nos meus olhos e eu lhe sorri com aquela agonia de coração ferido, de espírito aflito.
Sorri e olhei com toda a minha vastidão de pensamentos e com a confusão do sonho que queria ser real. Ela ali, parada ao meu lado, me olhando nos olhos e com os olhos cheios de lágrimas e eu ali, sentada ao seu lado com o cenário alternando entre escorregadeira, muro e escada. Eu sentada no alto e ela me olhando de baixo pra cima com o seu sorriso choroso na cara.
Cena mais estranha essa do sonho, sonho mais estranho esse de ontem à noite. Noite mais calma essa que eu tive e um perdão que ela disse que não me sai dos ouvidos.
Mês passado ela sonhou comigo, agora eu lhe retribui o benefício...
Depois de meses curtindo ausências é de se espantar a profusão de sentimentos. Afinal, o que existe é um mero desprezo entre nós.

Afeto, poesia e rio-mar.

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"Sabe, senti a tua falta hoje.
Não tanto quanto a alguns meses atrás, quando apenas nos falávamos à distância e a vontade de te ver e te ter só fazia aumentar.
Mas senti muito a tua falta hoje.
Tá! Tudo bem! Não foi tanta.
Foi algo assim, não conseguia nem sentir tanto o frio que fazia, e quando o vento insistia em abrir a porta e entrar os meus pensamentos já tinham corrido pela janela para tentar te achar.
Um dia chegaram a me dizer que para encontrar o paraíso seria necessário morrer, ainda bem que não descobriram o teu olhar, pois nele encontrei todas as respostas para as perguntas que sempre me fiz.
Torço para que eu seja um dos poucos a encontrá-lo, se não ganhei a vida eterna, ao menos felicidade eterna terei enquanto por perto você estiver.
Quem disse que não daria para misturar riacho doce e sal do mar estava totalmente equivocado, busco a tua doçura para equilibrar a minha pressão.
Mas para onde correu você? Donde foi desaguar?
Recorri ao nosso ponto de encontro para tentar te encontrar, ver se deixaste pistas.
Vasculhei cada canto do nosso momento. Percorri todos os esconderijos dos nossos segredos.
Refiz as cenas. A despedida. Sua corrida para fugir dos meus abraços e chegar cedo em casa.
Uma cinderela mais moderna e com uma família mais rigorosa na educação, afinal não eram nem seis da tarde, mas já havia a necessidade de sair correndo escadas afora para não perder a carona na carruagem.
Não adiantou muito. Voltaste de abóbora.
Enfim deixaste cair, não um sapato de cristal ou uma sandália, mas sim um brinco.
Agora correrei todos os reinos possíveis para encontrar-te, e acredite, até que eu fique cego te encontrarei, pois decorei cada detalhe do seu rosto com a ponta dos meus dedos.
Reinará no meu mundo, fará de mim talvez um sapo, bobo da corte ou até mesmo um príncipe, não sei ainda, mas de uma coisa tenho certeza, serás a minha eterna princesa!
Adoro você!

 Carta à Rebeca - Flávio Catão

(Inspirado na canção "Chinelo de Cristal" do Pirigulino Babilake)"


 Flávio Catão - Rio Vermelho/2011

Aparências

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Parte 1

Olhou para o relógio ultrapassado, pendurado na parede da sala, com ar desprezível.
Causava-lhe enjoos estar ali, naquele lugar mais um bar que uma casa. Pegou a calcinha do chão e a vestiu com pressa. Se conseguisse sair sem fazer barulho, poderia chegar em seu apartamento antes do Joe acordar.
Abotoou o sutiã pelo avesso, passou o vestido pela cabeça e segurou os sapatos de salto agulha com uma mão enquanto com outra, tentava localizar debaixo do sofá, a bolsa de couro vermelha.
Não se prestou ao papel de se olhar no espelho, sabia bem o que encontraria refletido, e precisava sair antes que seu acompanhante resolvesse repetir a noite passada.
Chamou um táxi pelo celular, abriu a porta da pocilga onde estava batendo-a atrás de si sem dizer adeus.
Caminhou para a esquina da rua onde havia marcado com o taxista; deu o seu endereço, podendo enfim, respirar em segurança.
Tentava entender o prazer que sentia em se auto-flagelar, mas esse agora, era o menor dos seus problemas.
O que diria a Joe? Como explicaria o fato de não dormir em casa? Como viveria se ele a deixasse?
Apagou instantaneamente as perguntas. Pensar nas respostas não diminuiria o erro, não a faria menos vagabunda.
Voltou dos seus devaneios quando o taxista parou em frente a um prédio. Olhou pela janela, pegou o dinheiro na bolsa, desceu do carro e ficou meio segundo contemplando a manhã, a suavidade do sol que brincava em sua pele e o carinho que o vento fazia em seus cabelos.

Parte 2

O porteiro lhe deu bom dia e ela seguiu para o elevador. Apertou o número quatro e esperou o solavanco costumeiro que ocorre sempre que o elevador sobe os andares.
Girou a chave na fechadura, entrou no estilo bailarina seguindo para a cozinha onde ligou a cafeteira.
Joe não estava acordado. Arrumou os brinquedos dentro do baú de madeira que seu pai havia entalhado anos antes, quando era apenas uma garota infantil e inocente.
Arrancou do corpo as roupas sujas, fechou a porta do boxe e permitiu que a água quente levasse embora toda a orgia da noite passada.
"Apesar de tudo, resolvi pedir a ajuda dele e como da outra vez, só ele pode me ser util agora", disse baixinho enquanto enxaguava o corpo perfeito que a natureza lhe dera.
Havia três anos que não entrava em contado com seu terapauta, mas deixou um recado com a secretária do médico essa manhã enquanto voltava para casa. Dessa vez terminaria o tratamento, estava convencida disso.
Pegou o roupão no gancho e foi ver o Joe, uma hora teria que encará-lo.
- Mãe, é você?
- Sou eu querido.
- Onde esteve?
- Aqui querido.
- Aqui? Eu fui ao seu quarto... Mãe, eu não te vi.
- Precisei sair, mas está tudo bem agora.
- Posso ver o papai hoje?
- Claro meu bem, agora já para o banho senão vai chegar atrasado na escola.
- Daqui a cinco minutos eu vou!
- Cinco minutos Joe, cinco minutos...
Arrumou a mesa para o café-da-manhã e jurou nunca mais agir assim, tão repulsiva e vil. Lembrou do sorriso do filho e das mãos sujas do homem dentro do seu vestido, estremeceu de tanto nojo...
Joe sentou-se à mesa, bebericou o leite morno em sua xícara decorada com filhotes de cachorro empenhado em convencer a mãe a deixá-lo ir para uma festinha na casa de um amigo no final de semana. 
A mulher concordava balançando a cabeça, dando pouca atenção ao filho, perdida em outra realidade.
Se esquecera das promessas feitas um minutos após o nojo lhe subir à garganta.
Estava agitada. Seu terapeuta teria que esperar, suas repreensões e bom senso teriam que esperar. 
Ela permaneceu concentrada, mesmo sem perceber, traçando novas formas de seduzir sua próxima vítima.
70ª Edição Conto/História
Esse texto é para que a imaginação corra solta. Aos poucos, todos os comentários serão respondidos e em breve eu estarei de volta como antes. Um beijo enorme aos leitores queridos!

Quase um segredo.

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Paulinha conheceu Júlio na quinta série, ele era um garoto baixo, magro, de óculos garrafais no rosto, aparelho maciço nos dentes, extremamente tímido. Raras vezes conseguia encarar uma menina e, muito dificilmente, possuía coragem para falar com ela mesmo que fosse para pedir o apontador emprestado.
Paula era o seu oposto; falava pelos cotovelos, ria de tudo e distribuía abraços sempre que via uma amiga cabisbaixa ou um garoto chorando num canto qualquer. 
Sua mãe conservava a mesma inocente cordialidade do ensino fundamental e ela esperava poder fazer o mesmo. 

Júlio vinha de uma família serena. Sua descendência japonesa transparecia nos costumes muito mais que na aparência. Vestia-se como um garoto brasileiro normal embora sua avó insistisse que levasse a sério sua cultura, mas em sua idade a formalidade recebia menos importância. 
Seus pais eram passivos, tão calmos que achavam divertido o filho querer ser diferente.
E assim cresceu Júlio: brasileiro em família estrangeira.


Em uma sexta-feira aparentemente comum, as amigas de Paula levaram para a escola um bolo de aniversário, Paula estava ficando mais velha, completara onze anos de vida.
Confeitaram o bolo com jujubas e confetes de chocolate coloridos e puseram sobre ele onze velinhas cor-de-rosa; a cor favorita dela. Estenderam uma toalha amarela no gramado sob a maior árvore do pátio, arrumaram os copos e pratinhos ordenadamente e os talheres foram enfileirados presos aos guardanapos de papel.
Mentiram tão descaradamente que Paula não sonharia, nem se vivesse mil anos, com essa surpresa.
Sendo assim, tudo ocorreu, quase, como deveria ser segundo os planos das suas amigas.


Paulinha, atenta aos mínimos detalhes viu no outro extremo do pátio o garoto estranho da sala.
Ela sabia que ele não tinha amigos e que era uma pessoa tímida. Ela já tentara puxar assunto outras vezes, mas ele sempre ficava vermelho demais para dar uma resposta.
Em meio aos gritinhos de prazer das garotas que a cercavam, pedaços de bolos que eram servidos, brigadeiros e guaraná ela levantou da toalha amarela com seu pedaço de bolo na mão e foi sentar, do outro lado, com o garoto que ela só conhecia o nome.
Sentou sem dizer uma palavra, nem mesmo um "oi", estendendo o prato com bolo para que ele comesse um pedaço.
Ele a olhou de soslaio, ponderou a situação, mas aceitou sem protestos o bolo oferecido pela menina. E ali ficaram comendo o bolo sem trocar palavras enquanto as amigas de Paula a fitavam severamente.
Magoadas, elas perderam o interesse na festa, guardaram tudo e seguiram para a sala.
E foi assim que Paula conheceu Júlio e desde então eles são inseparáveis.

Brincaram juntos de bicicleta, patins e pula-corda. Ele aprendeu a não achar infantil demais brincar de boneca e ela aprendeu a respeitar suas partidas de futebol-de-botão. Júlio ensinou Paula a nadar quando se tornaram grandes o bastante para ir à praia sem seus pais, e ela o ensinou a beijar, dançar e todas as outras coisas que só se aprende quando se ama.

Agora com vinte e seis anos (a mesma idade que Paula) Júlio pretende pedi-la em casamento, porém tem medo.

Senti um medo mortal, um medo que faz seus músculos tremerem sob o terno azul-marinho. Um medo que se funde aos ossos. Nunca sentiu nada parecido, mas sabe que a sua decisão é a correta. É a única decisão a tomar.
Ele a ama e a amará para sempre custe o que custar.
Recebe a bênção da sua avó e a ouve dizer que agora poderá morrer em paz; ele já é homem feito.
Sua mãe lhe dá de presente o seu anel de noivado e diz ao filho o quanto foi feliz e o quanto continua sendo.

Paula acordou nervosa essa manhã. Não sabia explicar o que tinha acontecido ou o que iria acontecer, mas sabia que era algo grande, algo que mudaria sua vida. Tentou telefonar para Júlio, mas o telefone estava ocupado. Viu toda a sua insegurança de adulto jorrar como num cano estourado. Sua mãe tagarelava coisas sem sentido para acalmá-la, mas não fazia efeito. Apenas Júlio conseguiria deixá-la relaxada, segura.
Em seu ser pressentiu a magnitude desse dia, respirou fundo e tentou ficar tranqüila.
Sua mãe, sabendo as intenções de Júlio, fez com que a filha vestisse o mesmo vestido que usou quando foi pedida em casamento. Paula suou frio, chorou durante meia hora, andou de um lado para o outro e por fim, vestiu o vestido que lhe coube ainda melhor que em sua mãe.

No clímax do desespero as duas mulheres ouviram emocionadas o som da campainha. 
Saindo correndo Paula abriu a porta e se deixou perder no poço fundo e escuro que eram os olhos do seu amado; o tormento das horas de espera se dissipou feito nuvem em dia de sol.
Júlio não permitiu que ela falasse nada, apenas colocou o anel em seu dedo, deu-lhe um beijo apaixonado e deixou que o tempo lhe carregasse para o passado. 
Ficaram ali, parados na porta, contemplando um ao outro, olho no olho, sorriso por sorriso. Fizeram exatamente como quando crianças no dia em que Júlio conheceu Paula, no dia que Paula lhe ofereceu um pedaço de bolo.


"Você me faz bem quando chega perto com esse seu sorriso aberto."

73ª Edição Musical, Bloínquês
O texto é enooooooorme, eu sei. Dá vontade de fechar a página só de olhar. Mas acredito que seja o meu texto mais inocente, mais doce, mais repleto de delicadeza. Amor em sua essência, ser primitivo.

Para às interrogações do amor que escrevo em uma carta.

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Porto Alegre, 13 de Julho de 1994.


Querido Benzinho,
Quando acordei essa manhã e vi sua rosa solitária enfeitando o lado vazio na cama, soube que algo estava errado. A rosa delicada, escolhida para me fazer suspirar ao pensar em você ocupando, para sempre, àquele lugar entre os lençóis não me fez mais feliz que o normal.
Continuei deitada ali sem atentar para a hora que passava ou o vestido branco que estava à espera do meu bem querer e do meu amor.
Meu amado; por anos sonhamos com o dia que mudaria infinitamente a vida que compartilhamos juntos, mas não fomos capazes de perceber que a mudança já se fazia presente nos gestos, nas palavras e em cada noite que fomos apenas eu e você, sem máscaras.
Prendemos-nos ao rótulo comercial da felicidade permitindo que o presente fosse um mero rabisco perante o futuro que desenhamos e pintamos com técnicas perfeitas.
Sinto em dizer que não me verás entrar nessa igreja e ir ao seu encontro. Não escutarás a minha voz proferindo os juramentos eternos e os meus beijos, como esta carta, permanecerão selados aguardando o seu toque.
Não há em mim desejo para transformar em realidade essa fantasia infame...
Eu quero de volta a alegria dos momentos sinceros e a leveza de espírito que essa união de fachada não pode me dar.
Você é o único senhor do meu coração e eu serei sua até o fim, se assim o desejar; mas eu não irei fazer parte do seu jogo para pôr as mãos na herança dos meus pais.
Perdoe-me por não ser capaz de dizer antes o meu desconforto e a minha descrença sobre esse casamento. Perdoe-me por te fazer passar pela humilhação de ser deixado sozinho no altar, entretanto, você precisa repensar seus valores. Se for capaz de viver sem esse dinheiro que só nos trouxe mágoas poderás voltar ao aconchego dos meus braços.
Espero-te em nossa casa; só assim será possível resgatar a essência do amor que nos bateu à porta no nosso antigo 13 de Julho. A porta estará aberta e eu aguardarei ansiosa para que você ocupe, sempre no presente, o lugar da minha rosa solitária.
E eu ainda espero a sua resposta para o meu amor de uma vida inteira, apesar de tudo.

Com toda a minha simplicidade, Lavínia.

Texto vencedor da 61ª Edição Musical - Bloínquês. Nota 10.

O Pianista.

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Ele entrou no salão de festa ao som do Piano de Cauda. 
A melodia era repleta de sentimentos; uma composição forte, mas suavemente delicada aos ouvidos.
Pensou ele que precisaria de cem dedos, no mínimo, se um dia lhe ocorresse o ímpeto de reproduzi-la.
Não conseguiu ver quem a tocava, entretanto tinha certeza se tratar de uma pessoa extraordinária. Alguém dotado de um talento nato...
Os giros dos casais que valsavam ao som da música doce e luxuriosa o fizeram sorrir. Compreendia que poucos ali compartilhavam a mesma emoção que sentia ao som inquietante das notas; e sem aviso, o Piano ficou quase mudo.
Fez-se um eco grave no salão que perdurou sob o toque do dedo do maestro e, sem explicar a razão para o novo enredo, o criador de tal sublime expressão sonora entregou aos ouvintes o tilintar brando, sutil e apaixonado que já preenchera aquele ambiente.
O rapaz de smoking azul-marinho, contrastando com os olhos azuis semi-transparentes, viu-se em um campo aberto cercado pelas tulipas brancas que sua mãe cultivava no jardim de casa, anos antes dele próprio saber o significado daquelas flores em forma de casulo.
A música despertava nele uma vontade incontida de reviver o dia do seu primeiro beijo. Fechou os olhos e seguiu, no pensamento, em direção a árvore de raízes grossas que completava a beleza do jardim. E quando reabriu os olhos, depois de saborear o lugar das suas memórias, a melodia trouxe diante dele a menina Clara - o seu amor da infância.

Ele não estava mais no salão de festas e sim, beijando com ternura a pequena criança de sardas no rosto e olhos cor de mel.
Nunca pensou que pudesse ter outra vez seu momento mais belo e, ao som daquela composição dos anjos. Afagou, na realidade distante do quintal de casa, o cabelo da Clara guardando-a aninhada em seu peito enquanto a música ia se perdendo em um desfecho delicado como as tulipas no jardim; com esforço, ele foi capaz de voltar a realidade da festa.
O rapaz precisava desesperadamente agradecer ao Pianista maravilhoso por lhe proporcionar o resgate das suas emoções. 
Esbarrando em algumas pessoas que se abraçavam ao final da música, ele conseguiu atravessar o salão e encontrar o Piano que fora colocado na extremidade da sala. 
O Piano que havia lhe fascinado durante toda a noite estava vazio da presença que o rapaz de smoking azul-marinho projetara ao ouvir a canção.
Não se tratava de um pianista maduro - homem sábio aprimorado pela experiência proveniente do tempo - ao contrário; sentada de frente ao Piano de Cauda, ocupando o lugar do maestro estava a bela moça dona da melodia que foi capaz de afugentar os demônios do seu coração sombrio. Ela era a pessoa responsável pela sua viagem de volta à Clara.
Cuidadosamente, preparando-se para uma nova canção, a moça fitou o rapaz que a olhava curioso e assustado.

Eram os mesmos olhos cor de mel, as mesmas pintas decorando a face, e foi assim que ele soube o motivo da música lhe levar ao primeiro beijo. Sem partitura ou qualquer ensaio, a complexidade da alma infantil ao encontrar outra alma de igual valor se refez intacta.

O que aconteceu depois fica a critério da sua imaginação, meu caro leitor. A minha missão havia chegado ao fim. Apenas posso dizer neste breve relato que estendi as minhas asas sobre o casal de espírito - almas gêmeas por criação - e deixei que o céu me levasse pelo caminho da guarda dos outros mortais; aqueles que sorriem para mim e se entregam sem reservas ao seu semelhante.
E que a minha missão permaneça esta: entregar aos humanos o amor incondicional que se eterniza pelo selo da boca - os lábios.


É isso, pessoas. Esse conto estava fervendo na minha cabeça há dias. O texto foi inspirado na música Redenção da minha banda do coração Muse. Espero que vocês possam ler até o final e que comentem bastante porque a opinião de todos é importante. Um grande beijo, até a próxima.


Quarta-Feira [8]

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 "Nosso amor seria para sempre.
E se morrermos, morreremos juntos.
E mentira, eu nunca disse.
Porque o nosso amor seria para sempre."

Em algum lugar o corpo da bela moça jazia em paz.
Seus cabelos negros, como a noite sem lua, jamais voltariam a balançar ao som do vento frio.
Seus olhos azuis feito mar permaneceriam, para sempre, presos na figura que lhe sugou a vida, a alma, os sonhos.
Seus braços, agora inertes como a cera endurecida, não mais aqueceriam o corpo do amado e seus lábios, carnudos e saborosos como a maçã que é colhida na hora da ceia, não mais selariam as promessas de amor.
Ela seria o desejo que não encontrou o ser para possuir; e uma vaga lembrança do futuro que espreita silenciosamente na esquina de casa.
Ela será sempre o que poderia ter sido, para ele, que permaneceu vivo mesmo ansiando morrer.

Como uma platéia eufórica nós contemplamos a destruição desse casal. Vimos extasiados a Dama da Noite  roubar sem permissão o coração da jovem inocente; a criança de olhos brilhantes, perdida em seus devaneios, que não foi capaz de salvar a si.
Como tolos, erguemos as taças repletas de sangue e brindamos a dor que não nos pertence. Sem enxergar que as lápides estão repletas de nomes, dos nossos nomes.

Em algum lugar o corpo da bela moça jaz em paz.
No presente, na solidão que deveria ser passageira. Sem poder curar o coração enganado, sem reter o poder do homem enganador.
Seu vestido cheirando a jasmim materializado na fotografia presa no porta-retrato da sala, e o que lhe cobria de fato o corpo, virou pó como todo o resto.
E o moço segura as lágrimas trancado em seu porão; sabe que o sorriso mais bonito foi apagado como vela em ventania: rápido, mas perceptível.
Deita tranquilo igual viu seu amor fazer em sua despedida, retira do bolso o líquido envenenador.
Bebe tudo em um gole, suspira feliz o suspiro que de certo será o último.
Ela agora não mais será o que poderia ter sido para ele caso estivesse viva.
Agora eles serão juntos o que ficou pendente em solo terreno.


"Paul" Ela diz ao vê-lo entrar em seu domínio.
"Luíza" Ele responde com os braços estendidos para prendê-la em um abraço.
- Imagine tudo o que nós poderíamos fazer, meu amado. - ela sussura em seu ouvido.
- Eu estou aqui para transformar seus sonhos em realidade, minha querida. - ele sorri complementando a resposta.


"Eu posso te dizer agora, sem um rastro de medo
que meu amor será para sempre.
E morreremos, morreremos juntos.
Mentir, eu nunca irei. 
Porque o nosso amor será para sempre."

Para o Bloínquês. 52ª Edição Musical.   
Texto ao som de Neutron Star Collision - Muse.

Presente Passado. [2]

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A casa da avó se conserva da mesma forma. Os tijolinhos de barro, o muro de reboco agreste, o telhado vermelho.
Apresenta-se aos olhos da criança adulta com o cheirinho de pão no forno, café quente no bule e biscoitos no pote sobre a mesa.
E a menina entra. Lembra da infância bem vivida, das canções de ninar e dos amigos gatos e cães com quem dividia o último pedaço do seu bolo favorito sabor limão.
Limpa os pés no tapete bordado que sua avó fez muitos anos antes dela nascer e respira fundo o ar de estar novamente em seu lar.
Sim, seu. O lar dela, as memórias dela e tantas outras espertezas, saberes e malcriações de ser filha única.
Recorda o tempo em que era alegre sentar na varanda, tomar banho de chuva, subir em árvore e nadar no rio.
Volta ao passado que ali é tão presente que nem se vê a hora passar, e fica.
Fica lá; onde tudo foi fácil, gostoso e cheio de expectativas. Permanece intocada no seu lugar sagrado.
Encontra na sala os porta-retratos enfeitados com o biscuit do seu primeiro trabalho artístico na escola. Percorre com os dedos e olhos, e sentidos (os outros) bem abertos e se deixa devanear entre quem foi, quem é e o que fará dela mesma a partir dalí.
Encontra-se logo então. Não do jeito que gostaria; não como a planilha preparada posta na bolsa.
Encontra-se no olhar acolhedor da avó, no olhar que perdoa tudo e tudo sara. No olhar que alimenta alma sedenta de consolo materno. E chora o choro preso na garganta. O choro que não chorou quando precisou dizer "adeus" a pessoa mais amada: sua avó querida.
E se arrepende, e pede desculpas e chora mais e mais.
A avó compreende, é claro. Mas fica quieta permitindo a neta diga àquilo que deveria ter sido tido, mas que não encontrou forças em si para romper a sela que é a boca.
Come um pedaço do pão ainda quente, acalma os ânimos com uma boa xícara de café levemente adocicado e volta ao quintal onde experimentou o prazer de se ter uma mente fértil. Lugar em que virava princesa, sereia e até o diabo, mas raramente ela brincava de diabo; só quando queria cometer pecado.
E sorri para o Pedro, o filhote mais novo de uma ninhada de seis gatos. O Pedro... E sorri outra vez. 
Ela adorava dar banhos gelados no Pedro apenas por judiação, para satisfazer a fúria infantil que é ver bicho sofrendo. Agora o Pedro é uma bola de pêlo, gordo e manhoso passeando entre as pernas de quem quer que seja. E sorri. E como sorri na casa da avó. E como se sente protegida na casa da avó, e como ela mesma é melhor pessoa estando lá. Sua avó amada...
E sorri internamente o maior e espetacular sorriso: o de quem faz algo errado e gosta do mal feito.
E lá está, no canto mais afastado depois das belas flores, a caixa sob a qual jaz o cágado. O animal que ainda lhe provoca repulsa e o qual ela não sentiu nenhuma dor da morte morrida e vida matada por ela.
E volta aos braços da avó com um sorriso enorme na cara.
- O que foi Bia?
- Nada não vó, lembrei-me do Guh, apenas.
- O cágado?
- Esse mesmo.
- Afinal, você sabe como ele morreu?
- Não. Eu só sei onde ele foi enterrado.


Esse texto já havia sido postado no Insensatez. Mas lendo ele essa noite, eu percebi o quanto algumas recordações da minha infância são sublimes e o quanto eu escrevo "torto"... Eu escrevi esse texto para o blog da minha prima, o Meu Diário.com; mas este já está inativo há muito tempo. Prometi postar textos que são de outras partes da minha vida e de outras pessoas às quartas... Mas vai assim na segunda/terça mesmo. Na quarta eu postarei um poema fofinho que a Carla fez para mim em 2008/2009. Kisses, Baby's!


Woodstock.

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A Kombi verde horrorosa dele esperava estacionada na porta do prédio. Uns 50 anos de uso, carburador furado, bancos gastos agora na cor bege lembrando vagamente a tonalidade marrom, que outrora, deram vida ao interior daquele carro.
A bagagem havia sido arrumada cuidadosamente na quarta-feira, dois dias antes dela precisar partir. O gato de estimação foi deixado aos cuidados da vizinha Maria Lúcia e com o porteiro, a responsabilidade de manter viva a sua samambaia da sorte. Não sabia para onde ele a levaria, não imaginava o que era a tal surpresa.
Abriu a porta logo após as três batidas costumeiras, deu-lhe um beijo no queixo, entrelaçou sua mão direita na mão esquerda do rapaz amado levando consigo a mochila presa no ombro enquanto ele carregava a mala, agora pesada, de viagem.
O elevador sacudiu um pouco, rangeu e seguiu em sua normalidade para o térreo. Conversaram sobre o dia que passaram longe um do outro até aquele momento, o que fizeram logo após os beijos dados ainda em frente a porta do apartamento dela; amenidades...
Ele girou a chave na ignição fazendo o motor roncar alto expulsando uma fumaça preta que encheu, por um minuto, a visão dos dois passageiros despreocupados que sorriam um sorriso quase sem graça da poluição ambiental causada pela Kombi velha.
Deram ali seu primeiro beijo, tiveram ali sua primeira noite de amor; nenhum outro carro os teria feito tão bem apesar das circunstâncias atuais. O moço soltou o freio de mão, afrouxou o pé na embreagem seguindo rumo ao litoral.
Ana delirava com o mar, as ondas quebrando na borda do Atlântico, as várias tonalidades do verde já se misturado ao azul e por estar ao lado do homem que lhe roubava o fôlego apenas com uma piscada de olhos. Delirava com o quanto a pele dele poderia ficar mais nítida a cada novo gradiente de cores dos raios quase findos do sol. Extasiava-se com a mudança daqueles olhos castanho-escuros para os poços rasos de um mel avelã.
Desabotoou um pouco a camiseta permitindo que o vento quente que soprava pela janela aberta em seu rosto fosse o seu alerta para a vida, se morresse ali com ele ao lado e todo o litoral ao alcance; morreria feliz.
Agora entendia o motivo da mochila de Camping, a barraca, o colchão de ar. Ele estava pagando a sua primeira promessa: acampamento; e pelo visto, com juros e correção monetária.
Marcos parou a Kombi 1960 entre os coqueiros baixos, estendeu a esteira de palha sobre a vegetação rasteira, armou a barraca, prendeu a rede.
Deitaram enroscados na rede na velha praia Woodstock, próximos a um punhado de casais, como eles.
Todos permaneceram contemplando a grandeza do pôr-do-sol dos fins de tarde de verão, menos o nosso casal. Eles permaneceram imóveis por muito tempo, protegidos pelo invólucro do amor eterno.


- Eles ainda eram crianças quando se olharam pela primeira vez.

Permanente - Parte XIII

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Marionetes

Pádua, 11 de Janeiro, 2010

- Manhã –

“Você vai me explicar o que está acontecendo aqui ou eu vou ter que perguntar ao Fabrizio?” Bacco me fitava com seus olhos negros ônix. Sua expressão revelava muito pouco e, no entanto, sua pergunta estava carregada de significados.
Levantei da cama dirigindo-me ao banheiro onde eu pude atenuar meu sono ainda visível no rosto através da bolsa roxa embaixo dos meus olhos com uma boa água gelada. Senti um calor característico nas minhas bochechas ao pensar em Fabrizio me despindo completamente para que eu ficasse confortável na camisola de seda azul-bebê.
Ao menos, minha calcinha ainda era a mesma da noite passada; significava que ele não tocara naquela parte do meu corpo e isso era um alívio já que eu me encontrava desacordada. Corei ainda mais por saber que Bacco me vira vestida desse jeito, nessa meia roupa.
Alcancei o roupão pendurado no gancho ao lado da banheira amarrando firmemente o cinto em minha cintura num laço pomposo.
“Eu não sei o que tenho para explicar” disse voltando do banheiro analisando o meu quarto e constatando algumas mudanças; sentei-me ao seu lado no pequeno sofá e beberiquei um pouco do suco de frutas vermelhas que D. Fausta trouxera para o café da manhã, instantes antes de eu acordar, como fazia todos os dias.
“Julia Mennone, por Deus, você está me deixando louco”. Afundei no sofá e fixei os olhos no vestido que usei na noite anterior. Ele estava passado e dobrado em cima do banquinho no canto oposto ao banheiro, no lugar costumeiro das roupas limpas; pelo visto, eu havia dormido demais.
“Eu não faço idéia do que você tem em mente”, respondi desinteressada por amor a vida dele. Eu teria que ser uma exímia mentirosa se quisesse vê-lo viver mais alguns anos.
“Quem foi a garota que dividiu o quarto com você ontem à noite? Eu já sei que ela não estuda aqui, então, quem ela é?” Olhei de relance sua testa enrugada e mordisquei uma torrada com geléia.
- O que você quer saber, Bacco? – falei diretamente deixando evidente a minha impaciência.
- Hoje é segunda-feira, caso você não saiba, afinal, seus professores andaram me fazendo queixas da sua falta de atenção nas aulas...
- Você está preocupado com as minhas notas?! – falei exagerando na palavra “notas”.
- Também, mas por hora, eu me contentarei em saber mais sobre a garota; sua amiga. E saber o motivo do garoto estranho que você dançou no bar do Taylor estar parado em frente à porta do seu quarto com a mão na maçaneta segundo antes de eu terminar de subir as escadas no final do corredor. Saber o que ele pretendia aqui antes do nascer do sol e para onde ele foi. Um segundo estava aqui – ele apontou para a porta – e no outro desaparecera completamente.
- Bacco... Caleb... Ele esteve aqui? – o desespero tomou conta do meu rosto. Tentei montar rapidamente uma máscara, mas Bacco não deixaria essa expressão passar.
- Então esse é o nome dele... Sim! Ele esteve aqui e por incrível que pareça, ninguém da Segurança o viu entrar.
- Ele é irmão de Emily, é isso! Deve ter vindo buscá-la. Era só isso que você queria saber? – falei levantando do sofá e abrindo as gavetas da cômoda vinho, procurando uma roupa para que eu pudesse sair do quarto. Troquei a camisola pelo jeans puído e uma camiseta amarela; escovei os dentes e ajeitei o cabelo. Bacco ainda estava sentado no mesmo lugar, imóvel.
- Por enquanto, isso basta! Mas quero lembrar-lhe que seu pai estará aqui para uma visita no final de semana.
Ele deixou o recinto batendo a porta ruidosamente. Eu joguei meus pertences pessoais dentro da primeira bolsa que encontrei, saindo do quarto sem me importar em trancar a porta.
Precisava achar Fabrizio e contar-lhe sobre os novos acontecimentos.
Caleb veio tentar concretizar seus planos; ficou a um metro do meu pescoço, a uma porta de roubar-me a vida.
Ele permanecia brincando, no controle do seu jogo predileto – marionetes - mas eu não iria permitir que o jogo continuasse assim: a seu favor.

Partes 12345678910, 11 e 12.

Leitores, eu quero agradecer de coração o carinho dessa semana. Vocês são ótimos. O Layout novo foi um presente maravilhoso que ganhei visto que ainda sou menininha em HTML. Estou lendo Dom Casmurro do Machado de Assis - que eu amo - e recomendo pela maravilhosa forma com que o autor escreve. Vou responder a todos os comentários, todos. E mando um Mega beijo para Maria Elis - o seu blog me fazia feliz, que pena que acabou. Gostaram dessa parte? Estão gostando do conto?

Encruzilhada.

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Viu-se da sombra apenas o cabelo fogo e o balaio debaixo do braço; cor do homem: indistinta.
Fez-se reza braba na encruzilhada, ele circunvagando o cesto de tranças lânguidas. Da sombra observei o gibão e da encomenda luzidia, fechei os olhos.
Quase três horas da manhã e o próprio cão esperando o diabo.
"Ínterim!" Praguejou o homem, mas balaio bom é coisa-feita incomutável.
Ouviu-se urros, berros, gruídos, patas, cascos, trotes e o ar modesto escondeu a desgraça em sua cerração.
O balaio tremeu! O balaio chorou! O balaio gemeu capitoso. A encomenda - não sei explicar o que era -, mas o que saiu dali arrepiou meus cabelos e tingiu de sangue a minha retina. E a linda vestal coberta de morim latente no halo pétreo lançou-se ao demônio sem face que ainda urrava com grande fúria.
Ela: leniente; ele: assomado.

Ele a comia como a um bibelô sagrado que é posto na mesa para encher os olhos e a boca d'água.
Sendo moça atinada, enroscou as coxas na cintura do cão e dos lábios dele recolheu um taco; todos os quatro caminhos, um de barro, outro de pedra, um de asfalto e o outro desconhecido pelos mortais, abriram-se em brasa aromática engolindo o riso lúbrico do homem malfadado.
Tremi mais que bambu em ventania, pedindo a Deus e a boa Maria que me guardasse a alma, os filhos e a vista dessa noite infernal; e ainda me deixei ver a moça chupar o homem como se este fosse o figo docinho que dá no fundo do meu quintal. Chupou-o tanto que se aquele ser não-terreno tivesse um caroço, ela o encontraria sem demora.

Reforcei apressada as trancas das janelas, beijei os filhos que dormiam como os anjos, mas me faltou a coragem de beijar a boca do homem que divide a cama comigo.
Esquálida, desviada do meu destino, contemplo o resto da cena imprópria.
Sucedeu-se que a moça foi engolida, após a cópula, pela fenda que se abriu no chão com balaio e tudo enquanto a sombra seguia com seu gibão pelo caminho imortal, revigorado.
E por hábito hebdomadário, sempre em noites que me foge o sono, a sombra-cão-homem-demônio retorna a velha encruzilhada com um cesto novo incircunscrito.


- Gostaram? Eu ando com a mente fértil ultimamente...

Permanente - Parte XII

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A Bailarina
" A vida amou a morte mais do que havia para morrer."


Pádua, Itália, 11 de Janeiro, 2010

- Madrugada -

Tudo na sala era um caos: os móveis empilhados do lado leste, os livros nas estantes acumulando poeira, depositados em cada prateleira em toda a extensão do recinto sem obedecer a um padrão lógico e o rosto de Fabrizio coberto por uma máscara inexpressiva. Meus olhos permaneciam sensíveis a qualquer movimento, capturando cada ser escondido na sala escura por menos que ele fosse.
A minha mente trabalhava cem vezes nesta noite numa tentativa insensata de compreender cada nova revelação que me era jogada na cara. Eu queria correr, eu queria gritar, mas o peso posto nos meus ombros soldou meu corpo e equilíbrio no canto ao qual eu me forçava a ficar de pé; meu último ato consciente, uma capa de força.
“Uma bailarina do inferno é isto que ela é”, pensei. Seus gestos contidos, macios, suaves; o andar seguro e leve com as pontas dos dedos mal tocando o piso cor de avelã.
O cabelo solto comportado nas costas e a postura totalmente séria, ela não desistira de nós, mesmo que esse fosse o nosso desejo final.
Ressoava nos meus ouvidos cada sílaba da sua história funesta, cada entonação ferida por ter perdido há quem muito amava, por ter sido separada prematuramente do seu futuro marido.
Emily, após séculos, remoia a lembrança da sua transformação e nem eu ou Fabrizio a impediríamos de nos fornecer o auxílio que ela própria não teve no que chama de “luta contra as trevas”.
Encontrei em meio à luz da Lua que entrava no cômodo os olhos do meu amado tão absorto em seus pensamentos, tão lindo em sua masculinidade e protetoramente sentado a poucos passos; ele agiria instantaneamente se as intenções de Emily fossem uma farsa.
A bailarina continuava falando sobre si e apontando para cada tela nas paredes desbotadas da sala desativada para reforma.
Rodopiava no ar e alisava com uma expressão magoada o pescoço e o colo, como se houvesse incômodo, ou algo que deveria estar ali, mas por algum eventual fato havia sido arrancado do seu lugar de origem.
Peguei-a me fitando determinadas vezes, contemplando a cor dos meus lábios, o comprimento das minhas pernas e a silhueta do restante do meu corpo.
Por mais que eu conseguisse prever alguns dos seus atos, toda ela era uma página em branco.
Fabrizio compenetrou-se ainda mais no seu objeto mental em questão e não me restou nada a fazer a não contemplar a Lua majestosa do lado de fora da janela através do vidro fino.
- O que vamos fazer agora? – perguntei no intuito de retornar à razão do meu ser. Fabrizio foi pego de surpresa me olhando desconfiado, mas a bailarina infernal continuou dançando pela sala como nenhuma palavra tivesse sido proferida.
- O que você pensa em fazer Julie? – Ele rebateu a pergunta, mas eu sabia que ele possuía uma resposta.
 - Sendo sincera... Não sei. Não podemos nos esconder, não podemos fugir. E lutar contra o devorador de almas não está em debate.
- Você está errada, mas por hora, é melhor levar-lhe de volta ao quarto. Bacco não ficará feliz caso a senhorita não esteja lá pela manhã.
- A Lua ainda está alta no céu, nós temos tempo de sobra. – eu disse constando-o.
- Você está errada, menina. Não temos tempo algum. – e senti o frio da morte percorrer minha coluna.  Era a primeira vez que Emily falava-me diretamente, olhos nos olhos. Ela evitara ao máximo aquele contado, mas agora se encontrava ali, sondando a profundidade do meu olhar. Virei à cabeça sem permitir que ela visse os temores escondidos na minha essência e olhei para Fabrizio para saber o que ele achava sobre esse novo fato.
- Emily, eu agradeço a sua preocupação e auxílio. Mas tenho que temer também pela vida dos outros inocentes desta cidade. Bacco ama essa garota e não suportaria perdê-la. É seguro mantê-lo longe, a salvo. E não acredito que ele ficará compassivo caso ela não esteja em seu quarto. Faria alardes em toda a Universidade e seu irmão descobriria automaticamente quem está por trás disso: você.
Pegando-me com seus braços fortes, aninhando-me ao seu corpo, Fabrizio me levou escada à baixo lentamente até que minhas pálpebras tornaram-se chumbo e eu deixei de sentir seu hálito quente em minha face e o som constante do seu coração.

Partes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 e 11.


É isso! Depois de meses sem pegar nesse conto, hoje acordei com uma vontade súbita de escrevê-lo, que por pouco, não me fez enlouquecer. A frase maravilhosa sob o título é do Cronista Fabrício Carpinejar que até esta data eu só conhecia por nome. Um blog muito querido ao qual eu leio fielmente, apresentou-me a este incrível intelecto humano e só posso agradecer pelo novo mundo que se abre diante dos meus olhos. De todo o meu coração, eu espero que vocês tenham gostado dessa parte e podem criticar à vontade. Apenas um pedido: sejam sinceros. Muito obrigada aos leitores. Até a próxima postagem.

Dialeto dos Olhos. [2]

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Parte 1

Clara Ana mulher Meneses detestava a angustia da prisão de se doar a alguém. E leva no sossego da alma os beijos adornados do não-amor, do desejo fugaz.
Desesperou-se o Lucas Pedro Almeida de Freitas, lançou palavrões ao céu gruindo ódio, salivando raiva por perder a loura queimada de olhos acastanhados.
Esperou dez minutos, secular, perguntando-se ela se tudo não fora trabalho maquiavélico da sua imaginação, ou então, se não fora um grupo de hormônio sapecas lhe pregando uma peça?! Sabia, porém no fundo de si onde os sonhos arquitetam-se emergindo, depois do esforço, à realidade que havia sido tomada por completo pelo amor de corpos, corações e vidas eternas.
O Sr. Almeida pediu licença a moça com a qual havia iniciado meio diálogo saindo correndo, traspassando os corredores de livros empilhados até encontrar o lugar onde sua Aninha, gentilmente, pegara um livro.
O buraco na estante, minimizado por um exemplar velho apoiado a outro, guardava um objeto brilhante que fora deixado para trás propositalmente.
Dentro da Clara ardia a chama da certeza do sucesso. Não resistiria a uma vida sem o Lucas, mesmo que ainda desconhecesse isto.
O Pedro-Lucas-Pedro capturou o broche em ouro branco em forma de um meio coração.
Sentiu como se houvesse encontrado o bem mais precioso: o complemento do seu Eu.
Mais uma vez a Ana olhou ao redor, mas escolheu um lugar improvável de ser encontrada.
"Será que ele não viu o amor em seus olhos?"
Abaixando a cabeça, fechou as pálpebras vagando no tempo-espaço.
Estremeceu!
Um toque em sua mão provocara-lhe um ardor agradável. Os mesmos dedos percorreram sua face, seus lábios.
As palavras perdiam-se dentro dela, mas sabia quem a estava tocando.
- Pertence a você?
Lentamente Ana Clara abriu os olhos e sorriu... sorriu... e sorriu.
Sem desviar, o menino-homem da Ana devolveu a pequena metade complementando o coração na gola da sua blusa.
- Te devolvo esse, mas o outro que me destes com o mar castanho eu carrego no meu e fica aqui o meu no seu.
E a Ana disse:
- O seu no meu, você e eu... você e eu!
Eles não vacilaram, souberam a partir do instante em que se viram. Não pensaram no futuro, não projetaram a vida.
Desfrutaram apenas o olhar um do outro e há quem diga que a Clara morreu olhando o Pedro, e que o Lucas morreu namorando os olhos da Ana.


- Texto de 30 de Julho de 2009 - Modificado.

PS: Descobri que tenho sido constantemente plagiada. Ainda não achei os blogs, mas eu tenho um rastreador de texto, então, será apenas uma questão de tempo. Isso é só um aviso, porque quando eu achar os realizadores dessa façanha as coisas ficaram muito mais complicadas.

Dialeto dos Olhos.

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Gostaria de ser mais homem, se impor; mas significaria abrir mão das horas gastas na biblioteca da faculdade. Isso é o que seu pai costumava dizer no café-da-manhã: - Seja homem, moleque!
E de tanto ouvir, começava a acreditar.
Voltou do devaneio virando a página do livro percebendo a presença da garota de pele queimada da exposição ao sol e cabelo de pontas claras dos dias de nado livre em alto mar.
A garota Ana Clara, abismada com o desfecho da estória que acabara de ler parou a mente se deixando observar as pessoas que ocupavam as mesas mais próximas e as outras, que distraidamente liam os prólogos diversos no ímpeto de aniquilar a dúvida cruel de qual volume levar para casa.
Avistou um menino magro, de cabelos fartos na cabeça e nas pernas e imensos olhos verde limo. Então ele, Pedro Lucas, os olhos desviou fingindo não prestar atenção ao súbito calor que lhe subia o corpo.
Puxou assunto com a menina ao seu lado, mas após três frases a conversa perdeu o sentido. Ela, Ana Clara, apoiou-se na estante a sua frente sorrindo um sorriso interno descarado muito notório ao garoto Pedro que lutava em disfarçar a estranheza do seu espírito desde que a moça morena-não-mulata entrou em foco.
Passou a mão nos cachos bagunçados e voltou toda a sua concentração ao livro.
Ana Clara foi esperta ao entender que este momento se fazia único como nenhum outro. Mesmo seu pudor repreendendo-lhe tornou a olhar indolente o Pedro Lucas, o menino das suas aulas de história.
Romance era o último dos seus planos; pegou o marcador de texto, colocou na folha a ser lida caminhando para a outra extremidade da imensa biblioteca aquietando o comichão gritante que em um oitavo de segundo tatuou-se em sua pele.
Pedro Lucas nem chegou a terminar a página para retornar a sua busca frenética pelos olhos da menina nova em sua vida, mas a cadeira ao qual ela sentara encontrava-se vazia.


- Haverá Continuação.

Falando de amor. [2]

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É possível que eu ame a mesma pessoa até o fim dos meus dias?
- É tudo que eu quero fazer: acordar ao seu lado eternamente.

Pensava em como é não ter pessoas que a amem de verdade. Sentia os olhos embaçados das lágrimas que surgiam involuntariamente, afinal, se ele a amasse mesmo já teria dado um jeito de aparecer.
Não que ela seja egoísta, mas prefere a dor à solidão.
A enfermeira gentilmente retirou a máscara, desligou os aparelhos e lhe disse que estava liberada.
Precisou apenas passar novamente pela médica para que seus documentos de liberação fossem assinados e carimbados.
Pegou a bolsa, o atestado médico, suas parafernálias na recepção e foi embora com os olhos ardendo do recente choro. A dúvida entre pegar um ônibus e ir andando para casa dissolveu-se feito mágica. Seu amor estava tão perto, a três ruas de distância. Discou novamente o número dele e obteve a confirmação: ele ainda estava esperando atendimento.
É claro que ela seguia furiosa por tê-lo esperado, por sonhar que ele estaria falando besteiras no intuito de deixar-lhe alegre na expectativa de que sua respiração estabilizasse.
Chateada por dificilmente algo sair a sua maneira e angustiada pela sua fragilidade física, mesmo que no ser seja forte.
Empinou o nariz, amenizou com maquiagem o rosto inchado do choro pensando na expressão de desagrado que faria quando o encontrasse.
Esperou o sinal para pedestre ficar verde no cruzamento na esquina do hospital indo pomposamente em direção ao garoto que arrebatou abrasadoramente seu coração.
Abriu a primeira porta, pediu informação à recepcionista, bateu o pé no chão de ansiedade contanto os segundos finais.
Disca o número; ele reclama: - setor errado! Atravesse a rua.
A garota venenosa respirou fundo tentando não surtar; os carros pararam ao pedido dela e pode seguir seu caminho.
Pela terceira vez abriu uma porta de clínica desde que acordou e , seus pesares, solidão, raiva e medo diluíram como açúcar em água. No instante em que seus olhos penetraram a imensidão verde dos olhos dele, o olhar seguro; seu amor, seu menino.
Olhos caramelo-mar! Intensos, profundos, donos de uma convicção muito maior que a certeza de que a cada dia o Sol irá nascer.




- Essa é uma pequena história que compõe as minhas mil facetas ao lado do menininho do meus sonhos. Cada dia é dia, cada mês é mês e nesse ir constante faremos numa data próxima 10 meses de sentimentos infinitos.

Falando de amor.

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É possível que eu me apaixone todos os dias pela mesma pessoa?
- A cada instante essa certeza me inunda: amar-te mais e mais.

Ela saiu furiosa do ponto de ônibus. Primeiro: estava atrasada demais para ir ao colégio e segundo: sua respiração começava a falhar.
Controlou a língua felina em respeito ao céu azul parcialmente nublado do mês de Agosto e pôs a mão no bolso do jeans capturando o celular em frações de segundos. Discou o número familiar e esperou que a sua mãe atendesse ao telefone em casa.
- Alô.
- Oi mãe, não estou indo para o colégio. Passei mal no ponto de ônibus, resolvi ir ao hospital, estou na metade do caminho. Liguei para avisar.
- Mas você não deveria entregar o Projeto Elétrico hoje?
- Deveria, mas meu peito dói e a respiração está entrecortada.
Interrompeu a ligação em seguida, não precisava dos sermões da mãe. Aumentou o passo, esbarrou em duas pessoas e atravessou a rua na frente de um carro.
Empurrou a porta do hospital e deu de cara com um ar-condicionado 15°C que mais prejudicava a inspiração do que outra coisa. O atendente vendo o rosto debilitado da moça não hesitou em proporcionar-lhe e aos outros pacientes, um ambiente menos hostil. O termômetro na parede, sem dificuldade, registrou a nova temperatura: 20°C.
Para ela, o ar dos 20°C era mais ameno e suportável. Para o atendente, haviam cortado seu devaneio de estar na Suíça, como se na Suíça não fosse tudo grau negativo.
Sentou numa das cadeiras plásticas verde, abriu a carteira e retirou os documentos necessários entregando ao menino leptossômico atrás do murinho de acrílico. Após conferir os documentos, o rapaz imprimiu a requisição e solicitou a assinatura da garota nervosa por não conseguir respirar.
Correu à sala da médica enquanto ela voltava a sentar na mesma cadeira plástica. Meio minuto depois, o recepcionista apático retornou e lhe disse que seria a próxima a ser atendida.
Pescou novamente o celular no bolso do jeans e discou o número da única pessoa que a compreenderia e lhe faria melhor.
- Alô!?
- Oi amor, sou eu.
- Desculpa seu número não apareceu no aparelho.
- Deve estar oculto, nem sei. Emprestei o celular ontem a minha irmã.
- Você está bem?
- Não! Estou no médico, vem ficar comigo?
- Crise alérgica, não é?
- Isso mesmo... - suas bochechas arderam de vergonha e prazer por ele conhecê-la tão bem.
- Eu também estou no médico, preciso tirar um raio-x, mas assim que terminar eu vou ao seu encontro. Caso haja um empecilho, eu aviso.
- Certo. Beijos amor.
- Beijos e fique bem.
- Eu vou ficar. Tchau.
Dez minutos se passaram desde que adentrou o hospital; estava na nebulização pedindo baixinho a Deus que o amado de sua alma estivesse ao seu lado. Adorava consultórios médicos, mas só quando tinha acompanhante.
Ficar ali sozinha, sem um rosto conhecido é bastante solitário.
Permaneceu 40 minutos numa sala minúscula olhando para as paredes brancas decoradas com quadros infantis de animais selvagens com uma máscara respiratória no rosto.


- Haverá Continuação!
 
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