Permanente - Parte XI

A Verdade Sombria

Pádua, Itália, 10 de Janeiro, 2010.


- Noite -


Todo o domingo, se comparado a este momento, foi insignificante; minha Julie está maravilhosa no seu vestido seda preta, com o seu cabelo castanho-avermelhado sobre os ombros, o salto agulha torturador e a maquiagem delicada realçando o rosto perfeito. Lembro-me bem a primeira vez que a tomei em meus braços e antes disso, lembro o instante em que eu soube que estava completamente apaixonado.
Muito mais apaixonado pelo sorriso indolente, os cabelos revoltados quando ao vento e as roupas sujas de uma brincadeira travessa que ela costumava me pregar do que pelas pernas esguias e fortes, cintura fina, peito firme e rosto talhado com total precisão.
E ainda hoje continuo assim: muito mais apaixonado pela sua personalidade atrevida.
Escolhi uma mesa com vista para o córrego e seus gondoleiros. O céu estrelado em sua melhor forma proporcionaria um charme, mesmo que sutil, ao nosso jantar.
Júlia Mennone caminhou silenciosamente ao meu lado até a porta do carro aberta que o motorista alugado para me servir durante esta noite lhe ofereceu. Sentou ereta, nariz erguido. Cruzou as pernas sedutoras e provocantes e nesse meio tempo, revelou um rasgo lateral no vestido, tornando visível a pele da coxa direita até o calcanhar.
Provocações; ela me testaria da sua mais tentadora maneira.
Chegamos ao Pallazo della Ragione onde um pequeno restaurante funcionava até o nascer do sol e nos acomodamos na mesa na qual eu fiz a reserva.
Júlia permaneceu calada por um bom tempo e sua expressão a cada segundo despertava um misto de curiosidade e angústia em mim.
Enchi nossas taças com o vinho da escolha dela e me posicionei para ouvir o que ela teria a falar, o motivo de toda a resignação.
- Fabrizio... – houve hesitação –, eu não sei explicar o que está acontecimento, mas sinto que você é o único capaz de entender o que eu vou lhe dizer. Na última sexta, no dia 8, eu fui até o bar do Taylor. O bar que mencionei em uma das minhas ligações; costumo para acompanhar umas amigas de classe e flertar com uns garotos. Mas tem algo errado! Eu me sinto insegura desde a última visita como se houvesse sempre um par de olhos sobre mim. E por diversas vezes essa sensação martela o meu cérebro como uma verdade incontestável, existindo realmente alguém a me observar. Eu sondei o Bacco e sei que não é ele e nem ninguém que ele tenha contrato para me vigiar.
- Por que você acha que está sendo seguida? – perguntei mostrando desinteresse, mas estava realmente assustado.
- Eu sinto! Lembra quando éramos criança e a Máfia Russa tentou nos seqüestrar?
- Sim.
- Desta vez eu sei que não é máfia alguma. É uma força maior, algo que não pode ser explicado com a razão... – seu rosto era uma linha neutra, sem emoções.
-Fabrizio, você acredita em forças ocultas? – e no momento seguinte eu nada pude responder, pois puxando uma cadeira para sentar em nossa mesa estava a mulher mais bonita que eu jamais havia visto na vida. Cabelos até a cintura, magra como uma modelo, olhos verdes na luz da vela e negros quando entrava na sombra que uma viga produzia próximo ao lugar que ela escolheu para sentar. Branca como a neve e delicada, aterradoramente delicada.
- Quem é você? – falei sem conter a medo e a excitação.
- Escutem-me crianças! Eu sou Emily! Sou o que esta cidade conhece como “Sombras”. Sou mais velha que Pádua e conheço o mundo melhor do que poucos. Tenho um irmão e a senhorita Júlia Mennone teve a infeliz graça de conhecê-lo.
Você corre perigo, minha menina! Eu não interferi; até agora! Você está me fazendo quebrar pactos, então espero que me ouça com atenção.
- Então vocês existem mesmo... – Júlia sussurrou para si.
- Foi um erro aceitar o convite do meu irmão para aquela dança. Somo caçadores, caçadores de homens e mulheres. Alimentamos-nos do seu sangue doce e quente. É como voltar à vida. É pela dança... Meu irmão seduz as mulheres através da dança. A dança é a chave de tudo. E nenhuma mulher é sua vítima se esta não desejar ser. Vocês podem dizer não ao convite, mas uma vez tendo aceitado vocês estão selando seu destino, dizendo não a qualquer oportunidade, a qualquer expectativa, a qualquer futuro.
- Eu faço meu destino. – Júlia disse confiante, mas via-se um traço de medo em seu olhar.
- Não criança, você não faz! Somos mais fortes, mais espertos, resumindo: somos melhores! Somos a evolução.
- Melhores? Melhores em quê? Vocês tiram vidas inocentes, vocês matam para se manterem vivos, matam seres conscientes e não animais tolos. – foi a gota d’água para ela.
Júlia pegou o vestido que arrastava no chão, arrumou-o no corpo e seguiu para a porta do estabelecimento e um segundo após encontrar a escuridão da noite fria, uma mão a puxou pelo ombro fazendo-a rodar e cair de joelhos no chão antigo sem asfalto.
Um gemido de dor estremeceu em seus lábios e seu corpo começou a ser levantado, empurrado e por vezes arrastado com toda elegância de uma bailarina. Júlia se debatia, choramingava, tentava acertar o rosto do seu agressor, mas só encontrava o ar aqui e ali e nada mais.
Passados cinco minutos de luta vigorosa ela se deixou ser conduzida até o final da rua. Eu paguei a conta e fui me juntar às duas senhoritas tão distintas, mas donas de uma beleza que fazia meu coração crepitar como a lenha na lareira.
- Fabrizio... Por que não me ajudou?
- Julie, será que não vê que somos vulneráveis?
- Não importa! Eu tentei... – e lágrimas mancharam a maquiagem perfeita.
A Sombra em minha frente colocou Júlia no colo e embalou-a com uma canção assombrosa. Um arrepio tomou meu corpo inteiro e meus músculos endureceram travando meus pés no chão onde estavam.
O choro de Júlia começou a amenizar com o balanço e o carinho em sua face favorecendo a continuação da conversa.
- Eu amei muito um mortal há vários séculos e sei o que é o amor. – falou a Sombra. – eu vou ajudar vocês em nome desse amor. Vou lutar contra o meu irmão. Eu sou a melhor chance de sobrevivência que os dois possuem.
Fomos ao carro que me esperava, e a Júlia, de volta a Universidade. Bacco deu um aceno de cabeça e perguntou se ela estava bem. Julie mentiu dizendo que se tratava de problemas femininos e que logo ficaria melhor e que para isso uma amiga nova dormiria em seu quarto para lhe prestar o socorro quando necessário.
Bacco estremeceu ao ver a garota, mas não poderia se opor a uma mulher dividir o quarto com Júlia. Passados dez minutos, uma batina leve em minha porta perturbou meus devaneios e a garota incrivelmente bonita me convidava a segui-la, indo as duas em direção a sala de literatura pagã. Ao que parece, ela nos contaria uma história.

5 Comentários:

Tati comentou:

Adorando muito tudo.

Espero mais logo.

Beijo.Beijo

Monique Premazzi comentou:

Bell, você cada dia mais me deixa louca com esse conto. Ta incrível, e eu aposto que vai ter mais de 20 partes KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK ADORO ISSO!

Ta muito bom MESMO.
Continua logo, viu? *-*
xx

Bell Souza comentou:

Eu tbm acho que vai ser enorme, kkkkkk! te mando tudo (word) assim que terminar! *-*

amanda gomes. comentou:

adoorei *-*
;*

Isadora Beatriz comentou:

Cada parte me deixa mais louca. Caramba! QUE história ótima...envolvente, demais <3

 
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