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6º dia: 14/09/14. Caetano

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"A tristeza é senhora
Desde que o samba é samba é assim
A lágrima clara sobre a pele escura
A noite, a chuva que cai lá fora


Solidão apavora
Tudo demorando em ser tão ruim
Mas alguma coisa acontece
No quando agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora..."

5º dia: 13/09/2014. Só um banho de Sol para lavar as mágoas.

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Acordei preguiça demais pra levantar, mas levantei num susto e fui! Fui porque precisava ir mesmo com a melancolia tentando me dominar.
Moto-táxi, vento levantando o cabelo e cortando o rosto semi acordado. Me vesti para o combate: uma mistura de sereia rosa sensual e punk fatal do nordeste! rsrs No Lapa semi cheio com minha leggin bem colada, mochila nas costa e uma crença, dessas profundas, de que meu dia seria melhor, eu fui!

Reuniões, acertos, cortes e costuras dos meus trapos! Remendos. Eu colando os cacos. Eu fui...

Pessoas sorrindo, o Sol bonito inundando o sábado e meu espírito se abrindo, receptivo, para a toda a intensidade. Eu fui, continuo indo... Conversas com estranhos, risos. Continuo indo...

Barra! Casas, planos, escolhas, perspectivas. Gargalhadas. Horas e mais horas rindo de você, de mim, dos problemas dos amigos que estão tão na merda quanto eu! Confesso, foi divertido. Volto melhor, infinitamente melhor, pra casa! Pego um Lapa tranquilo dessa vez e volto dormindo aconchegada nesse dia bonito de Sol. 

O choro, as crises, as indecisões e todos os sentimentos ruins que ainda me alcançam foram um mero detalhe diante da leveza do Sol sorrindo pra mim nesse sábado.

1º dia: 09/09/2014: Fez-se inverno.

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As minhas reflexões ficam mais amargas com o passar das horas. O exercício contínuo entre as áreas, unidades mentais e físicas, não me conduzem a uma melhora. O exercício me leva até você. O exercício me faz andar ao redor de tudo isso como essas longas caminhadas que as pessoas dão ao redor de um parque ou lagoa. Mas isso é agora, isso é hoje e hoje, não é o começo.
***

Excruciante! Excruciante! A garganta seca e o rosto empalidecendo gradativamente. O palestrante me olhando de um jeito vago, absorto... agora já não mais... curioso... Os olhos dele nos meus olhos marejados. Não suporto! Desabo ali mesmo, de um jeito muito discreto, perante todos. Consigo pedir licença e me retirar do auditório rumo ao desconhecido. Entregar-me totalmente ao novo que me espreitou, achou e possuiu sem demora. Terça de inverno. Noite sem lua de céu com nuvens carregadas. Faz frio, mas eu nem sinto. Os calafrios que convulsionam meu corpo têm outro motivo. 

A chuva... A chuva abafando meus soluços incontidos, meus gemidos de dor, de raiva, desespero, incertezas; todos os sentimentos escorrendo pela face. Por fim, o enjoo. O vômito que não avança, apenas ameaça.

Excruciante! Já li essa palavra tantas vezes em meus livros, mas nunca tinha ousado usá-la. Usu-a agora devido à falta de um sinônimo que te represente melhor em minha vida. É o primeiro dia, são apenas as primeiras horas de um tormento que reconheço: vai demorar pra passar. A volta para a casa, nessa terça fatídica, será sempre insuperável. Os lábios mordidos, o choro rompendo o silêncio inundando as outras poltronas, sem abafo! Sem contenção! Tento me engolir. Engolir o sangue que agora converto em lágrimas. E chorei tantas outras vezes naquela mesma noite que a noite passou depressa após ter desabado com a cara na minha poça de lágrimas e amores. Dormi, por fim, o sono sem sonhos mais atormentado de todos.

Quem somos agora?

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[Re]Pintei nós dois.
A tela gasta dos meses que passamos juntos merecia nova cor.
Atualizei a trilha.
Andava farta das músicas que embalaram o começo do nosso romance; hoje somos mais do que simples apaixonados.
Afundei na sorte.
Sorte de encontrar alguém melhor em alma, mente e coração.
Prendi a chuva.
A chuva de outro que me sondava as emoções.
Apurei o foco.
O mar em minha frente é todo o oceano dos teus olhos verdes sobre mim.

[Re]Pintei nós dois
Como tantas vezes fiz,
Nesse nosso espaço de tempo,
Nessa brincadeira de criança.
Usando giz de cera para colorir o chão onde novas portas são abertas e o que temos é a coragem de fechar os olhos e entrar sem pensar em mais nada.

Aracaju - Sergipe. Dezembro/2011

O que disse ontem.

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Não é nada daquilo que eu julgava ser.
As roupas ainda estão empilhadas no armário, os sapatos ainda se perdem embaixo da cama.
Não é o que eu queria ser.
Ainda perco tempo dizendo besteiras, ainda me dedico menos ao que importa.
E quando dou por mim estou presa no mesmo laço, circunscrita na mesma história.
Nada dos sonhos, nada do hoje; sem agora.
Apenas um lapso do que gostaria, uma doce lembrança do que era outrora.
E que deixe estar, eu vou voltar com a minha cara, com as minhas roupas e o meu desejo.
Para escrever mais uma vez meus medos...
Para falar novamente o que há no mundo, e pôr na mesa as cartas da minha vida.


Em 04 de Maio de 2001
No meu querido Insensatez

Talvez.

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Apologias:


Pausei: o relógio, o cronômetro, a vida, o rádio.
Juro que jurei não frear tão bruscamente, juro que tentei deixar rolar...
Causei: a porção desmedida da era, a pincelada de culpa que faltava.
E nada mais há de ficar em pé;
Nada mais há para fazer durar;
Nem um taco;
Nem um terço;
Muito menos, grão.



Mesclado:

Vou começar burlando as regras, 

Prometendo atos de Páris ao dom de Helena.
Vou inspecionar as vestiduras amargas; 
Sujas de sangue pobre...
E sei ser não, moço. Nada fora do mundo que me cerca.
Sei ser muito pouco, tolo. E assim sou terra.
Chão firme de mim, areia barrenta do cerne.
Sem Constituição; apoderando autoridade.
E assim, como tantas vezes, inicio as promessas dos atos, do dom pós regras: 
De Helena que sou toda eu - antes Páris. 

Lavando da alma os nossos pecados.

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Por acaso, daqueles de deixar a boca sorrir sozinha, hoje a vontade veio e trouxe consigo o desejo de escrever.
Vontade súbita - quase muda - de encher coração, mente e folha em branco com a melodia ditada dos meus não versos. Ao som dos Beatles e com o pensamento nas conversas perversas e maliciosas de cada dia aceno para que a graça desse passado mais seu que nosso invada esse pedaço da noite.
É certeiro esse medo do futuro que se esgueira apressadamente entre nossas vidas mal entrelaçadas e é com convicção que me perco em outras vidas, de outros amores; mas que foram preenchidas com essas almas que tomam o meu e o teu corpo agora.
E por acaso hoje eu encontrei em cara com um nome que lembra o teu. Com um gosto que lembra o teu. E com os teus olhos de devorar meu movimento quando desfilo por aí de saia arrastando no chão.
E tudo, tudo mesmo, ganha um sentido diferente quando outras presenças e ausências cumprem esse papel de aproximar o meu caminho do teu destino incerto.
E afinal, como já era de se esperar, isso não é amor; é só saudade.



Não faz sentido para mim que sou de toda anormal. 
Imagina o estrago que não faz na cabeça desse pobre mortal.

Falando sem frases.

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Não vou falar dos meus defeitos.
Não vou falar dos meus conflitos;
Das brigas que tive ontem.

Não quero falar dos 'por menores'.
Não quero ouvir frases compreensivas;
E nem fazer parte do grupo de apoio.

Se eu quero o mundo?
- Sim, eu quero.
Se eu posso tudo?
- Sim, eu posso.
Se eu sou melhor que isso?
- Sim, eu sou!


Para o meu relógio que não pára de tiquetaquear!

O que eu não disse antes.

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Minha flor, Lírio azul.


Escrevo-te os meus versos sinceros com o coração no bico da caneta. Sei que preferes tudo assim: sentimental por exagero.
Sei o quanto errei em não te mandar a sua tão sonhada carta, mas meu ser é pequeno em dimensão e sou criança nas palavras. Não haveria em mim o conteúdo necessário para relatar o que tenho feito e o quanto tenho sofrido com a sua ausência.
Lembro os dias de sol em que ficávamos deitados na grama do campo atrás do seu prédio e de como os olhares das pessoas chegavam flamejantes em minha pele. Como se deitar no campo a céu aberto fosse o maior e o pior pecado de todos. Mas e daí? Esses foram os nossos momentos!
Consigo identificar ainda o seu cheiro. Não sei explicar, é verdade. Mas toda vez que me sento
no banco velho da praça do centro da cidade é como ter você ali. Como se a madeira, estranhamente, tivesse absorvido seu perfume e deixasse exalar ao me sentir sentar.
E como eu gostaria de abrir os olhos nos meus momentos de divagações e ver o seu sorriso, o único sorriso que me faz sorrir por dentro...
Reconheço o quanto fui insensato e como precipitadamente abandonei o sonho de te ter 'pra sempre'.
Só que antes eu não sabia que se pode verdadeiramente ter alguém assim.
Recordo também do seu lenço soado no bolso da minha camisa cinza-claro. Ele continua guardado depois de todos esses anos, tanto pelo esquecimento que me dar tirá-lo, tanto por querer algo seu.
É insuportável pensar que de todas as suas coisas, apenas um lenço sujo restou nas minhas coisas.
Da próxima vez eu vou tratar de guardar uma calcinha. Calcinhas são muito mais interessantes que lenços, e você sabe!
E pode até parecer piegas:continuo te amando.
Eu fui muito mais o espinho do que a terra fértil para você florescer. Mas amor é amor e pouco importa a cara!
Essa é a minha última carta. Àquela carta que escrevi quando entrei no ônibus. A carta que você adulou que eu mandasse via Sedex. Mas diante da própria dor, um homem precisa se calar.
Então, calo-me!


Do seu Joel,
Para o meu eterno Lírio.


Marie, apenas te amo.
E tudo isso é porque amanhã 
começa a última semana do outono.
A mesma semana em que
há 20 anos eu te beijei.
{Foto - Regina Spektor}

Palavras de todo dia.

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Estou amando meus sonhos, meus planos e objetivos. 
Namorada do meu futuro incerto e do braço forte que sustenta meu edifício.
Completamente presa na loucura que é o seu sorriso lua cheia. 
E volto dia e sou noite.
Irrevogável!
Indolente!
Menina de pés no chão e mente no espaço!


Coisa velha, coisa boa, coisa minha.

Seus segredos.

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Diferente de todos, ela guardava em seu baú o que mais amava:
as cartas,
os livros,
os versos,
os bilhetinhos de amor.

Nada escapava aos seus olhos,
nem as flores,
as fotos,
colagem
e capas.

Vivia para juntar coisas, sorria das suas descobertas.
Era sapatilha, caixa decorada, pincel quebrado, miudezas diversas.
Para os outros, bugigangas.
Para ela, o seu universo inteiro.




Para ela, o baú dos seus tesouros, as suas lembranças.

Vento, ventania.

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A força do vento está no horizonte sempre aberto. Nos montes que o impele a voar mais alto, nas folhas do outono que lhe atribue beleza.
O vento, assim como nós, sobrevive das inúmeras mutações que sofre. Com um sorriso, olhos brilhantes e um rubor na face vai o vento beijar os lábios dos amantes por natureza.
Tenho visto, com muita frequência, o poder de sua soberania; de longe se faz de brisa e nos pega de surpresa feito um tufão.
Certo dia, enquanto bebericava o chocolate quente que o papai fez em um fim de tarde, atribui valores ao nosso amigo de espírito. Foi difícil encontrar características sólidas, mas por fim, a tarefa rendeu mais que o esperado.
Não vou relatar minhas conclusões, elas são tão surreais e pessoais que me envergonha expulsá-las de mim. Mas garanto que nessa história não há tragédias nem preconceitos... 
E no meu presente de Brasília-Capital-Nacional vou me aconchegando no moço sem face, na ventania ciumenta.
Vou observando alegremente o vento lamber minhas pernas, e levantar meu vestido para me fazer corar.

Aparências

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Parte 1

Olhou para o relógio ultrapassado, pendurado na parede da sala, com ar desprezível.
Causava-lhe enjoos estar ali, naquele lugar mais um bar que uma casa. Pegou a calcinha do chão e a vestiu com pressa. Se conseguisse sair sem fazer barulho, poderia chegar em seu apartamento antes do Joe acordar.
Abotoou o sutiã pelo avesso, passou o vestido pela cabeça e segurou os sapatos de salto agulha com uma mão enquanto com outra, tentava localizar debaixo do sofá, a bolsa de couro vermelha.
Não se prestou ao papel de se olhar no espelho, sabia bem o que encontraria refletido, e precisava sair antes que seu acompanhante resolvesse repetir a noite passada.
Chamou um táxi pelo celular, abriu a porta da pocilga onde estava batendo-a atrás de si sem dizer adeus.
Caminhou para a esquina da rua onde havia marcado com o taxista; deu o seu endereço, podendo enfim, respirar em segurança.
Tentava entender o prazer que sentia em se auto-flagelar, mas esse agora, era o menor dos seus problemas.
O que diria a Joe? Como explicaria o fato de não dormir em casa? Como viveria se ele a deixasse?
Apagou instantaneamente as perguntas. Pensar nas respostas não diminuiria o erro, não a faria menos vagabunda.
Voltou dos seus devaneios quando o taxista parou em frente a um prédio. Olhou pela janela, pegou o dinheiro na bolsa, desceu do carro e ficou meio segundo contemplando a manhã, a suavidade do sol que brincava em sua pele e o carinho que o vento fazia em seus cabelos.

Parte 2

O porteiro lhe deu bom dia e ela seguiu para o elevador. Apertou o número quatro e esperou o solavanco costumeiro que ocorre sempre que o elevador sobe os andares.
Girou a chave na fechadura, entrou no estilo bailarina seguindo para a cozinha onde ligou a cafeteira.
Joe não estava acordado. Arrumou os brinquedos dentro do baú de madeira que seu pai havia entalhado anos antes, quando era apenas uma garota infantil e inocente.
Arrancou do corpo as roupas sujas, fechou a porta do boxe e permitiu que a água quente levasse embora toda a orgia da noite passada.
"Apesar de tudo, resolvi pedir a ajuda dele e como da outra vez, só ele pode me ser util agora", disse baixinho enquanto enxaguava o corpo perfeito que a natureza lhe dera.
Havia três anos que não entrava em contado com seu terapauta, mas deixou um recado com a secretária do médico essa manhã enquanto voltava para casa. Dessa vez terminaria o tratamento, estava convencida disso.
Pegou o roupão no gancho e foi ver o Joe, uma hora teria que encará-lo.
- Mãe, é você?
- Sou eu querido.
- Onde esteve?
- Aqui querido.
- Aqui? Eu fui ao seu quarto... Mãe, eu não te vi.
- Precisei sair, mas está tudo bem agora.
- Posso ver o papai hoje?
- Claro meu bem, agora já para o banho senão vai chegar atrasado na escola.
- Daqui a cinco minutos eu vou!
- Cinco minutos Joe, cinco minutos...
Arrumou a mesa para o café-da-manhã e jurou nunca mais agir assim, tão repulsiva e vil. Lembrou do sorriso do filho e das mãos sujas do homem dentro do seu vestido, estremeceu de tanto nojo...
Joe sentou-se à mesa, bebericou o leite morno em sua xícara decorada com filhotes de cachorro empenhado em convencer a mãe a deixá-lo ir para uma festinha na casa de um amigo no final de semana. 
A mulher concordava balançando a cabeça, dando pouca atenção ao filho, perdida em outra realidade.
Se esquecera das promessas feitas um minutos após o nojo lhe subir à garganta.
Estava agitada. Seu terapeuta teria que esperar, suas repreensões e bom senso teriam que esperar. 
Ela permaneceu concentrada, mesmo sem perceber, traçando novas formas de seduzir sua próxima vítima.
70ª Edição Conto/História
Esse texto é para que a imaginação corra solta. Aos poucos, todos os comentários serão respondidos e em breve eu estarei de volta como antes. Um beijo enorme aos leitores queridos!

Quase um segredo.

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Paulinha conheceu Júlio na quinta série, ele era um garoto baixo, magro, de óculos garrafais no rosto, aparelho maciço nos dentes, extremamente tímido. Raras vezes conseguia encarar uma menina e, muito dificilmente, possuía coragem para falar com ela mesmo que fosse para pedir o apontador emprestado.
Paula era o seu oposto; falava pelos cotovelos, ria de tudo e distribuía abraços sempre que via uma amiga cabisbaixa ou um garoto chorando num canto qualquer. 
Sua mãe conservava a mesma inocente cordialidade do ensino fundamental e ela esperava poder fazer o mesmo. 

Júlio vinha de uma família serena. Sua descendência japonesa transparecia nos costumes muito mais que na aparência. Vestia-se como um garoto brasileiro normal embora sua avó insistisse que levasse a sério sua cultura, mas em sua idade a formalidade recebia menos importância. 
Seus pais eram passivos, tão calmos que achavam divertido o filho querer ser diferente.
E assim cresceu Júlio: brasileiro em família estrangeira.


Em uma sexta-feira aparentemente comum, as amigas de Paula levaram para a escola um bolo de aniversário, Paula estava ficando mais velha, completara onze anos de vida.
Confeitaram o bolo com jujubas e confetes de chocolate coloridos e puseram sobre ele onze velinhas cor-de-rosa; a cor favorita dela. Estenderam uma toalha amarela no gramado sob a maior árvore do pátio, arrumaram os copos e pratinhos ordenadamente e os talheres foram enfileirados presos aos guardanapos de papel.
Mentiram tão descaradamente que Paula não sonharia, nem se vivesse mil anos, com essa surpresa.
Sendo assim, tudo ocorreu, quase, como deveria ser segundo os planos das suas amigas.


Paulinha, atenta aos mínimos detalhes viu no outro extremo do pátio o garoto estranho da sala.
Ela sabia que ele não tinha amigos e que era uma pessoa tímida. Ela já tentara puxar assunto outras vezes, mas ele sempre ficava vermelho demais para dar uma resposta.
Em meio aos gritinhos de prazer das garotas que a cercavam, pedaços de bolos que eram servidos, brigadeiros e guaraná ela levantou da toalha amarela com seu pedaço de bolo na mão e foi sentar, do outro lado, com o garoto que ela só conhecia o nome.
Sentou sem dizer uma palavra, nem mesmo um "oi", estendendo o prato com bolo para que ele comesse um pedaço.
Ele a olhou de soslaio, ponderou a situação, mas aceitou sem protestos o bolo oferecido pela menina. E ali ficaram comendo o bolo sem trocar palavras enquanto as amigas de Paula a fitavam severamente.
Magoadas, elas perderam o interesse na festa, guardaram tudo e seguiram para a sala.
E foi assim que Paula conheceu Júlio e desde então eles são inseparáveis.

Brincaram juntos de bicicleta, patins e pula-corda. Ele aprendeu a não achar infantil demais brincar de boneca e ela aprendeu a respeitar suas partidas de futebol-de-botão. Júlio ensinou Paula a nadar quando se tornaram grandes o bastante para ir à praia sem seus pais, e ela o ensinou a beijar, dançar e todas as outras coisas que só se aprende quando se ama.

Agora com vinte e seis anos (a mesma idade que Paula) Júlio pretende pedi-la em casamento, porém tem medo.

Senti um medo mortal, um medo que faz seus músculos tremerem sob o terno azul-marinho. Um medo que se funde aos ossos. Nunca sentiu nada parecido, mas sabe que a sua decisão é a correta. É a única decisão a tomar.
Ele a ama e a amará para sempre custe o que custar.
Recebe a bênção da sua avó e a ouve dizer que agora poderá morrer em paz; ele já é homem feito.
Sua mãe lhe dá de presente o seu anel de noivado e diz ao filho o quanto foi feliz e o quanto continua sendo.

Paula acordou nervosa essa manhã. Não sabia explicar o que tinha acontecido ou o que iria acontecer, mas sabia que era algo grande, algo que mudaria sua vida. Tentou telefonar para Júlio, mas o telefone estava ocupado. Viu toda a sua insegurança de adulto jorrar como num cano estourado. Sua mãe tagarelava coisas sem sentido para acalmá-la, mas não fazia efeito. Apenas Júlio conseguiria deixá-la relaxada, segura.
Em seu ser pressentiu a magnitude desse dia, respirou fundo e tentou ficar tranqüila.
Sua mãe, sabendo as intenções de Júlio, fez com que a filha vestisse o mesmo vestido que usou quando foi pedida em casamento. Paula suou frio, chorou durante meia hora, andou de um lado para o outro e por fim, vestiu o vestido que lhe coube ainda melhor que em sua mãe.

No clímax do desespero as duas mulheres ouviram emocionadas o som da campainha. 
Saindo correndo Paula abriu a porta e se deixou perder no poço fundo e escuro que eram os olhos do seu amado; o tormento das horas de espera se dissipou feito nuvem em dia de sol.
Júlio não permitiu que ela falasse nada, apenas colocou o anel em seu dedo, deu-lhe um beijo apaixonado e deixou que o tempo lhe carregasse para o passado. 
Ficaram ali, parados na porta, contemplando um ao outro, olho no olho, sorriso por sorriso. Fizeram exatamente como quando crianças no dia em que Júlio conheceu Paula, no dia que Paula lhe ofereceu um pedaço de bolo.


"Você me faz bem quando chega perto com esse seu sorriso aberto."

73ª Edição Musical, Bloínquês
O texto é enooooooorme, eu sei. Dá vontade de fechar a página só de olhar. Mas acredito que seja o meu texto mais inocente, mais doce, mais repleto de delicadeza. Amor em sua essência, ser primitivo.

Só são belas palavras.

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Nada como a cordialidade aparente. Como essa troca de favores desejosa em prender o outro aos seus caprichos.
Nada como essa nossa humana camuflagem feita em seda. 
Linda, engomada, passada e bem vestida em quem lhe cabe.
Capa para esconder o corpo ausente, capuz cara esconder a face fria.
E penso nessas horas sinceras em que me devoto a quem sou se poderia eu ser mais.
E posso ser?
E penso também no que poderia fazer se fosse mais.
E posso fazer?
E me dou a outras questões tão mais complexas que essa cordialidade aparente.
E posso pensar?
Eis então o problema!
Se reconheço que penso por estímulo, por ação externa e não por inspiração profunda, como posso eu ser-fazer?
Eis então outro problema!
Já que vejo aqui tratados e não merecimentos, e vejo também o egoísmo de quem quer tudo para si e que se danem os outros.
Como eu disse, nada como a cordialidade aparente.
Afinal, espera-se o tombo para poder cutucar as feridas.




- Nada como um balde de água fria na cara
para te fazer ver além do que nos foi permitido.

Sem pontuação nem regra

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Andarilha de pernas peçonhentas,
Corpo rechonchudo de olhar vidrado,
Oito saltos agulha sobre o solo
E umas mil garras afiadas.

Saberia lhe dizer quem ela era
Se não fosse eu projeto natural tão abstrato
De superfície pálida e flácida
A contemplar jazido de morto novo.

Chama ela a atenção dos menininhos meus,
Por eles serem inocentes errôneos
De cabeças cheias de plumas e sonhos,
E espírito de cavaleiro bravo.

Dói em mim saber da partida,
Dos olhinhos sorridentes que não voltarei a ver
Já que a fera não faz distinção
e qualquer ser ela se dispõe a comer.

Um aqui comigo,
outro lá em casa.
E a aranha maliciosa-envenenada
prende-me os braços, e saliva
os meus meninos com lábios fartos.

{Google}

Eu estou tão atarefada que decidi fechar meu outro blog: O Insensatez. Como tem muita coisa lá e eu não quero que esses textos fiquem esquecidos vou postar aqui, aos poucos, esses escritos com o Marcador Insensatez. Espero que vocês curtam essas outras verdades. :*

Indagações.

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Quando a vida chega em um ponto onde suas escolhas precisam ser feitas para preservar o coletivo, o que você faz?
Você se esconde e deixa que tudo siga como tem que ser ou, assume uma postura madura frente a sua realidade?
Quando você não sabe dizer ao certo quem é a pessoa que habita a sua carne, você tenta exorcizá-la ou, conhece intimamente o habitante?
O que é melhor: ser uma droga de pessoa vivendo de aparências ou quebrar o sistema e ser alguém digno?
Quando tudo que você faz é fugir, para onde você vai?
Que lugar é bom o bastante para te fazer abandonar as pessoas que te amam, que te apoiam e que cuidam de você?
Quando a sua vida chega em um ponto onde a loucura e a lucidez andam de mãos dadas; você grita? Você pira? Você pára e repensa ou fica a vegetar?
O que é pior: saber que está errando e continuar no erro ou errar inocentemente?
E existem inocentes? 
Quando o mundo ao seu redor declara: "seja magra, alta, loira e transe com o primeiro cara que aparecer", você faz? Você cumpre? Você se submete?
Quem diz não? Quem prefere o contra? Quem escolhe não fazer parte da massa total?
Quando a minha vida chega num determinado ponto, em uma encruzilhada, eu sei que a decisão de seguir é minha mesmo que a minha decisão seja voltar atrás e começar de novo.
E você; sabe o que fazer?




Na vida é importante saber definir com clareza quem você é
e quem você quer ser.
 
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