Aparências


Parte 1

Olhou para o relógio ultrapassado, pendurado na parede da sala, com ar desprezível.
Causava-lhe enjoos estar ali, naquele lugar mais um bar que uma casa. Pegou a calcinha do chão e a vestiu com pressa. Se conseguisse sair sem fazer barulho, poderia chegar em seu apartamento antes do Joe acordar.
Abotoou o sutiã pelo avesso, passou o vestido pela cabeça e segurou os sapatos de salto agulha com uma mão enquanto com outra, tentava localizar debaixo do sofá, a bolsa de couro vermelha.
Não se prestou ao papel de se olhar no espelho, sabia bem o que encontraria refletido, e precisava sair antes que seu acompanhante resolvesse repetir a noite passada.
Chamou um táxi pelo celular, abriu a porta da pocilga onde estava batendo-a atrás de si sem dizer adeus.
Caminhou para a esquina da rua onde havia marcado com o taxista; deu o seu endereço, podendo enfim, respirar em segurança.
Tentava entender o prazer que sentia em se auto-flagelar, mas esse agora, era o menor dos seus problemas.
O que diria a Joe? Como explicaria o fato de não dormir em casa? Como viveria se ele a deixasse?
Apagou instantaneamente as perguntas. Pensar nas respostas não diminuiria o erro, não a faria menos vagabunda.
Voltou dos seus devaneios quando o taxista parou em frente a um prédio. Olhou pela janela, pegou o dinheiro na bolsa, desceu do carro e ficou meio segundo contemplando a manhã, a suavidade do sol que brincava em sua pele e o carinho que o vento fazia em seus cabelos.

Parte 2

O porteiro lhe deu bom dia e ela seguiu para o elevador. Apertou o número quatro e esperou o solavanco costumeiro que ocorre sempre que o elevador sobe os andares.
Girou a chave na fechadura, entrou no estilo bailarina seguindo para a cozinha onde ligou a cafeteira.
Joe não estava acordado. Arrumou os brinquedos dentro do baú de madeira que seu pai havia entalhado anos antes, quando era apenas uma garota infantil e inocente.
Arrancou do corpo as roupas sujas, fechou a porta do boxe e permitiu que a água quente levasse embora toda a orgia da noite passada.
"Apesar de tudo, resolvi pedir a ajuda dele e como da outra vez, só ele pode me ser util agora", disse baixinho enquanto enxaguava o corpo perfeito que a natureza lhe dera.
Havia três anos que não entrava em contado com seu terapauta, mas deixou um recado com a secretária do médico essa manhã enquanto voltava para casa. Dessa vez terminaria o tratamento, estava convencida disso.
Pegou o roupão no gancho e foi ver o Joe, uma hora teria que encará-lo.
- Mãe, é você?
- Sou eu querido.
- Onde esteve?
- Aqui querido.
- Aqui? Eu fui ao seu quarto... Mãe, eu não te vi.
- Precisei sair, mas está tudo bem agora.
- Posso ver o papai hoje?
- Claro meu bem, agora já para o banho senão vai chegar atrasado na escola.
- Daqui a cinco minutos eu vou!
- Cinco minutos Joe, cinco minutos...
Arrumou a mesa para o café-da-manhã e jurou nunca mais agir assim, tão repulsiva e vil. Lembrou do sorriso do filho e das mãos sujas do homem dentro do seu vestido, estremeceu de tanto nojo...
Joe sentou-se à mesa, bebericou o leite morno em sua xícara decorada com filhotes de cachorro empenhado em convencer a mãe a deixá-lo ir para uma festinha na casa de um amigo no final de semana. 
A mulher concordava balançando a cabeça, dando pouca atenção ao filho, perdida em outra realidade.
Se esquecera das promessas feitas um minutos após o nojo lhe subir à garganta.
Estava agitada. Seu terapeuta teria que esperar, suas repreensões e bom senso teriam que esperar. 
Ela permaneceu concentrada, mesmo sem perceber, traçando novas formas de seduzir sua próxima vítima.
70ª Edição Conto/História
Esse texto é para que a imaginação corra solta. Aos poucos, todos os comentários serão respondidos e em breve eu estarei de volta como antes. Um beijo enorme aos leitores queridos!

3 Comentários:

Juliane Bastos comentou:

É tão bom quando as palavras nos transmitem essa sensação de sempre querer mais. Gostei muito.

Garota Ambulante comentou:

Menina. Que blog lindo *-* adorei aqui, ja to seguindo <3

Compartilhando Sentidos comentou:

Gostei do jeito que você conduz as palavras. Belo texto.


Seguindo você.

Dá uma passada no meu canto e se gostar...

Bjocas ao vento e eutimia

 
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