Peões e Rainha.

O vento frio soprava de algum lugar distante da realidade da menina amarela de olhos amendoados.
Um vento que deixava suas bochechas coradas e as mãos doloridas e enrugadas pela severidade do esforço de permanecer fora de casa, longe do calor gostoso do fogão de lenha.
Pensou na mãe, nos amigos de infância e nos quadros coloridos que seu pai lhe dera, mas nada disso importava agora. Seu passado era um mero borrão, uma sombra defasada das próprias fantasias.
Tentou chorar; tentou doer; tentou sangrar. Nada aconteceu, por fim. Os olhos duros focando o infinito ressoava na alma o oco que era, o vazio constante, a falta de tudo.
Tão nova e tão morta que me fazia querer curar suas feridas, fazia-me querer colar suas fraturas expostas. E quem era eu afinal para concertar um espírito pobre?
O vento massacrava minha face e nada das minhas pernas correrem para longe dali. Fiz-me prisioneira da possessão dos seus olhos de guria nordestina com pé genético no Sul amado, da força que eram seus braços finos e dos seus lábios grossos cor de marfim.
- Um peão, assim me chamava. E eu sorria convicta e adepta do prazer violento que emanava daquele pequeno corpo.
- Um peão, eu repetia para mim. Orgulhosa em ser uma súdita sem valor do seu criminoso xadrez. Estava totalmente apaixonada pela serenidade das suas palavras, irrevogavelmente inserida no seu destino alheio ao meu.
Permaneci contemplando a cena mais estranha da minha vida, o frio cortando meu ser em dois e uma emoção que tentava traiçoeira ocupar os espaços vazios que florescia em mim tão pequenos e lilás quanto flor de acerola. Era curioso me ver através do espelho nos seus olhos e engraçada a indolência da menina.
Prostrei-me às suas vontades de Rainha e a aqueci, para sempre, no calor das minhas memórias.

{Google}

Eu conheço duas meninas, duas cabeças do mesmo dragão. Quem as olha de longe as chamam de gêmeas, mas eu que enfrentei as profundezas mais remotas sei bem o espírito que as domina e suas diferenças peculiares. Uma eu amo com todo fervor, outra eu odeio assombrosamente. Mas é da malignidade da segunda cabeça que eu mantenho o meu coração batendo.

6 Comentários:

Ana Bitti comentou:

Que lindo! Você escreve muito bem, parabéns. Estou seguindo, beijos.
http://devaneiosdecaneca.blogspot.com/

Bell Souza comentou:

Obrigada! :P

Emerson Aroeira comentou:

O que a distancia é capaz de fazer. A saudade, a vontade de ter tudo o que ficou para trás, os amigos e depois nos resta a vontade de chorar, sangrar, doer e do que vê e consente a vontade de curar essa dor!

Amei sua escrita, também estou te seguindo!

Gabriela F comentou:

Nossa, você escreve bem demais.
Estou a seguir para acompanhar-te.

Nath! comentou:

Olá, estou seguindo seu blog, segui o meu também http://nathmania.blogspot.com/ : )

Thamires Figueiredo comentou:

Adoreeeeeei seu espaço e claro que te sigo. Te achei no twitter também, te sigo lá, beijos linda :*

 
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