Abstrato'

Parte II

Queridíssimo amigo diário; você é tudo o que me resta. Eu tenho medo do escuro também. Deixe o abajur aceso quando partir. Faça isso por mim. Por favor.
Eu chorei, confesso. Havia um casal na minha porta. Não estou mentindo, juro! E eles sim, verdadeiramente, se amam. Mas precisei entrar, trancar a porta com as sete chaves. Você bem sabe o quão pouco gosto de invasão.
Diário, não sei fechar os olhos. Como pode? Não sei como dormir. Eu já não sei muitas outras coisas...
Querido Diário, ainda está aqui? Você ficou mudo, estranhei; só isso! Você tem paixão em comentar. Calma, não fique irritado, eu sei que é fiel. Só não estou bem, esqueceu?
Amigo! Achei uma foto que colei em você num dia passado. Foto legal, um belo par de amantes, pessoas sorrindo. Quem são eles? Não, não conheço não. Eu já te disse que não! Peculiar, não acha? Eles estão no mesmo jardim que eu fui ontem. O jardim que mencionei há minutos atrás. O casal dorme abraçado na foto, deitados sob uma sombra generosa e sobre o gramado verde. Tenho a impressão de ter visto a cena, mas falta-me certeza. Gostaria de saber quem são; o garoto da foto... Eu acho que conheço. Como é?! Eu conheço? Não Diário, não conheço não! Ou será que conheço? E isso importa? Sou eu na foto?! Você pirou? Não poderia ser...
Meu querido e único amor; pára de esfregar na minha cara o quanto eu fui feliz. Pára de debochar de mim, do que me tornei.
Meu... E por Deus não me estenda mais a mão. Eu quero cair e permanecer. Eu prometo que se o fizer irei recusar. Escrevo-te hoje e que leia na imediata hora: não serei mais teu ombro amigo.
Meu estúpido Diário! Fui fiel até aqui. Amanhã não haverá. Não fique a minha espera no nosso altar. Agora, se me permite, eu vou pregar os olhos. Tentar o sono e o sonho em acordar melhor. Talvez encare o meu reflexo, talvez vista uma roupa num tom vermelho e tire dos olhos a lágrima. Talvez coloque na boca um sorriso de bom gosto. Mas tudo isso, se por acaso, eu realmente acordar.

- Dedicado ao meu amigo dos momentos incertos. -

7 Comentários:

fernanda,1bej comentou:

Que texto lindo, me deixou um pouco confusa claro, mas ficou maravilhoso, tendo varias ironicas ...

Carla Rosenvelt comentou:

Por que ela não via o próprio reflexo no espelho?
Onde ela vai agora?
Por que passou a odiar o diário?
Por que ela não se lembra mais do rapaz no jardim?
São tantas perguntas que, provavelmente, ficarão sem resposta. A menos que ela acorde.

Beijo solitário.

Emi comentou:

Tô adorando! A sua maneira de descrever um diálogo entre 'garota e diário' é muito inteligente!
Amei!
Beijoos, flor!
Ps: Sou baiana também, rs! :)

A. Lima comentou:

é um relt mpressinante, uma briga co um diari fiel! quantas duvidas, solidão, a felicidade msm que n passado deve nos servir pra algua cisa não? sou fã dos seus texos e fic me pergunando como só vim descbrilos agra O.O


Com Carinho,
Aline Lima

Naty Araújo comentou:

Eu adoro essas conversas com diários.
Pra postagem fica ótimo e vc soube escrever muito bem.

Noy Medeiros comentou:

Adooorei * Fiquei com pena da meninaaa...

Amiiga adoroo seus textoos!
Sucesso,

Regina comentou:

O bom de um diário, é que já que não podemos ler o futuro, lemos o passado. E com gosto! O futuro as vezes não é bem vindo.

 
Licença Creative Commons
O trabalho About My Truth - Sobre As Minhas Verdades de Rebeca C. Souza foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
Com base no trabalho disponível em http://bell-aboutmytruth.blogspot.com.br/.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais ao âmbito desta licença em https://www.facebook.com/aboutmytruth