Abstrato'

Parte I

Querido Diário; acordei estranha nessa manhã. Eu não consegui ver meu reflexo no espelho. Assustei-me. Permaneci parada por alguns instantes tentando manter minha sanidade e mesmo assim não pude encontrar explicação plausível. Tomei um banho rápido, vesti minha jaqueta de couro preto por cima de uma blusa branca qualquer. Usei a meia-calça de bolinhas que ganhei de aniversário. Usei também um mini-short jeans combinando com as botas de combate e a maquiagem pesada.
Realcei todas as expressões e mesmo assim não foi possível enxergar-me.
Querido Diário, eu me sinto mal agora. Triste. Uma profundidade em dor desconhecida, sem causa. Completamente vazia. Estou sozinha nessa madrugada enquanto conto-lhe o meu dia.
Meu mais fiel amigo perdoe-me por ter rabiscado e arrancado todos os meus versos. Tudo que havia escrito em ti. Mas eu me enchi; estava cansada de mim mesma. Lembro-me de pegar um ônibus na tarde passada e de descer em um lugar bonito, com árvores enormes cheirando a fruta fresca e com uma fonte colonial no centro como num jardim. Desculpe-me, eu não sei o nome do local e não sei mais como encontrá-lo. Ah! Conheci alguém diferente na tentativa de deixar o lugar. Um rapaz alto e sereno como os fins de tarde. Ele me estendeu a mão, sabia? Prendi o pé numa raiz antiga e cai rolando feita bola solta em ladeira. Ele limpou meu machucado, acredita?
Isso mesmo! Não sei de que forma, mas ele estancou uma ferida que sangrava. Não sei como...
Meu confidente, você pode me entender? Aceitar-me? Explicar quem sou? Conviver comigo? Desculpa de novo, sei que são muitas perguntas e não precisa respondê-las agora.
Tenho a sensação de “barriga-cheia”. Sério! Devo ter comido uma besteira numa esquina ou num bar. Sei que não demorei muito, já que minhas roupas não trouxeram nada indicando que não permaneci muito tempo lá. Fuçando a bolsa encontrei entradas para o cinema. Só não posso informar o filme, mas garanto-lhe que assisti um.
Meu menino, eu sei que fui falha em te afastar da minha vida e perversa quando tentei te queimar. Eu não tenho as velhas palavras e a minha caligrafia não é mais da mesma forma, virou passado. Não tenho nada a dizer-lhe. Tudo que eu tinha deixei num vômito ao entrar nessa rua nova. Rasguei minha meia, pode imaginar isso? Vovó Lilá que deu. Ela criaria bico seguido de cara feia se soubesse. Já são 2 horas e se continuar como estou não acordarei no horário previsto. Preciso me acordar cedo, ou melhor, preciso não acordar tarde.
Querido Diário; tenho medo. Muito medo do que eu posso ver quando sair da cama e encarar novamente o espelho. O espelho revela tudo, será? Revela o oculto? O avesso? O que vai dentro de nós? ... Eu e minhas perguntas capciosas. Ora pois; não pedi que respondesse. Então permaneça quieto. Apenas ouça, guarde.

[...]

3 Comentários:

MED MUCHSTTER comentou:

E você fala bem dos meus textos?RS. OLHA PARA OS SEUS, MEU DEUS. Você realmente me fez entrar no contexto, como se fosse a minha história, e eu mesma estivesse contando-a. "Ele me estendeu a mão, sabia?" Esse blog é o MELHOR DO MUNDO ! Como eu amo seu blog ! Desculpe minha ausência, meu blog começou por um AMOR, e era muito difícil aparecer por lá sabendo que esse amor não existia mais. PORÉM, eu to aqui, firme e forte!RS. Quero agradecer pelos seus elogios, eles significam MUITO para mim.
MUITO OBRIGADA, De uma SUPER FÃ!

Carla Rosenvelt comentou:

"Apenas ouça, guarde."
É o que sempre peço aos meus diários. A maior alegria é poder lê-los sem que ninguém aponte nada, sem que ninguém corrija nada. Só você, seus desabafos, seus desafetos e as inseguranças e não ciências dos dias passados.
Lindo texto, amiga.

PS: Reconheci o menino que curou o machucado, ta? Qualquer semelhança não é mera coincidência

A. Lima comentou:

cara eu conseguir pôr a calca, o short, as meias, cair,, ver o garotoo sereno estancar a ferida... eu VIVI esse dia com vc, acho que ISSO é que é o toque magico da escrita: ENVOLVER, trazer o leitr pra dentr do texts, pra que ele sinta... uma Cabot mra aqui *--*
vu ler a Parte II


Beijin

 
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