Meias mentiras.

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- Irá (ele) mesmo sofrer caso eu cate as coisas, feche as malas e vá embora?

Meu tico-e-teco ficou atordoado depois do jantar, e a sopa da meia-noite agravou este meu caso já grave. Perguntei-me entre a digestão, o gosto e a falta da fala se (ele) sofreria como diz.
Duvido que pense em se matar; tirar vidas passou longe (dele) e, muito mais improvável seria toda essa atenção que (ele) jura me devotar até o fim dos tempos.
Longe de mim, pensar mal de quem me faz, inegavelmente, bem; mas conheço os homens tanto quanto o meu reflexo no espelho; a forma refletida não me engana a cara, as linhas, a reza. O conteúdo me é familiar como o sabor do beijo da boca do homem que enrosca a face em meus cabelos e perde os dedos, unhas, fibras e tostões dentro das minhas roupas não tão limpas.
E esse sabor marcado na boca, às vezes, é tão amargo quanto o suor que (lhe) escorre o corpo.
Reflito sobre as noites que não passamos juntos e o sexo que nunca achou hora nem lugar para acontecer por mais que estivéssemos dispostos, por mais que implorássemos por isso.
E vendo-o ali, no meu portão, antes da sopa me causar efeito adverso, frágil como os tufos claros que cobrem-(lhe) a cabeça, é que me apercebo ser malvado. Enquanto (ele) chorava por dentro e permitia-se um meio sorriso pouco convincente, eu gemia baixinho essa dor de passar um ano fora sorrindo profundo com mil dentes à mostra as alegrias de tê-lo sempre meu, ao alcance do querer-fazer.
Não, não sou masoquista, dissimulada ou estratégica; mas estas, são minhas (falsas) meias mentiras.

"É assim que isso funciona
Nós somos jovens até não sermos mais.
Você ama até não amar mais
Você tenta até não poder mais
E ri até chorar, e chora até rir
E todo mundo deve respirar
Até o ultimo suspiro"

On the radio - Regina Spektor.

Hoje é o aniversário da minha amiga-irmã Carla Jane Coelho. Te amo meu benzinho. E ainda vamos viver muitos anos dessa nossa amizade que já criou raízes muito mais profundas que a distância entre o Brasil e o Japão. (Observação feita pelo Mapa Mundi)

Confissões.

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12 de Setembro de 2010, Camaçari, Bahia.

Caro leitor,

Reconheço essa minha aflição a flor da pele que vos tem tirado o sono; essa falta de doçura com as palavras e o amor que custa inundar meus pensamentos verbalizados pela tinta preta impressa em qualquer papel.
Qualquer papel, mesmo;  a cara da folha pouco importa, de mais vale as emoções que entrego nele que os babados, os floreios e a cor nova.
Para falar do tangível, escolhi o tema saudade, que nada mais é do que um olho do amor. O outro olho fica por conta do ciúme.
Amor saudoso em querer mais, ciumento em possuir.
A proposta do Ítalo é escrever um amor de Nero que põe fogo na erva daninha e consome Roma sem glória; só coragem.
Poderia escrever antigo, bonito e inventado, mas qual seria a originalidade? Escrevo então imperfeito, simples e sincero para que o Ítalo perceba que nem sempre o melhor é o mais bonito.
E mesmo se quisesse compor as belas cartas, elas não viriam à mente devido a mentira implícita nos versos, e hoje acordei dada às verdades.
Voltemos ao amor, então, e vos digo a minha descrença nesse “tudo suporta, tudo sara”.
Vejo o tempo arrastando as horas, levando na enxurrada os beijos, e as palavras que não encontraram o hálito para se fazerem crer; acredito agora, somente, na eficácia do meu café.
Também já não posso relatar o amor materno/paterno que anda tão sujo quanto à moça de cabaré; a língua expulsando a fúria e a mão marcando a ferro a pele nova da criança ainda mais nova que não sabe aonde errou.
É, meu caro leitor, o mundo anda sinistro; e do que tem valido o amor? Trocar-se-á por um pedaço de pão ou uma moeda de ouro?
E os amigos? Há seres mais falsos? Basta que vos diga-lhe um punhado de palavras que aos ouvidos pareçam duras para que vejas o quão frágil é essa ligação, que outrora, vocês chamavam cósmica.
Tenho boas amigas, é verdade. Tenho bons amigos, é mais verdade que a outra, mas o que tenho excelentes são as irmãs; amigas-irmãs.
São elas que me secam as lágrimas, que riem das minhas não-piadas e batem na minha cara quando sou cretina além da conta.
Liberdade tem limite sabia? E as rédeas dessas minhas amizades eu sei levar, afinal, minha espora é muito mais afiada.
Essa é a minha carta, a que engoli um dia passado, para não me acharem: sem guardas.
Na presença do amor eu sou outra, não melhor que na presença dos outros sentimentos; mas completamente inteira, eu mesma e confusões.
Se for para falar de amor, como é a intenção, esqueça tudo o que eu disse aqui. Vou dissertar em poucas linhas sobre o amor do berço.
Foram as cantigas, as estórias, o embalo no braço quente, as horas acordada, o peito suculento e o sorriso farto que me trouxeram firme e forte até aqui.
Desculpe-me a contradição de amor materno, mas o amor do berço, de fato, é incondicional; o único deveras grande.
Tudo isso era que eu tinha a relatar, e como já havia escrito, acordei dada às verdades. E no resto... São mais que sobras.

Para os meus leitores e para o Ítalo;
 o que sabe meu nome sem conhecer-me a face.

- Bloínquês. Edição Cartas.

Permanente - Parte XIII

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Marionetes

Pádua, 11 de Janeiro, 2010

- Manhã –

“Você vai me explicar o que está acontecendo aqui ou eu vou ter que perguntar ao Fabrizio?” Bacco me fitava com seus olhos negros ônix. Sua expressão revelava muito pouco e, no entanto, sua pergunta estava carregada de significados.
Levantei da cama dirigindo-me ao banheiro onde eu pude atenuar meu sono ainda visível no rosto através da bolsa roxa embaixo dos meus olhos com uma boa água gelada. Senti um calor característico nas minhas bochechas ao pensar em Fabrizio me despindo completamente para que eu ficasse confortável na camisola de seda azul-bebê.
Ao menos, minha calcinha ainda era a mesma da noite passada; significava que ele não tocara naquela parte do meu corpo e isso era um alívio já que eu me encontrava desacordada. Corei ainda mais por saber que Bacco me vira vestida desse jeito, nessa meia roupa.
Alcancei o roupão pendurado no gancho ao lado da banheira amarrando firmemente o cinto em minha cintura num laço pomposo.
“Eu não sei o que tenho para explicar” disse voltando do banheiro analisando o meu quarto e constatando algumas mudanças; sentei-me ao seu lado no pequeno sofá e beberiquei um pouco do suco de frutas vermelhas que D. Fausta trouxera para o café da manhã, instantes antes de eu acordar, como fazia todos os dias.
“Julia Mennone, por Deus, você está me deixando louco”. Afundei no sofá e fixei os olhos no vestido que usei na noite anterior. Ele estava passado e dobrado em cima do banquinho no canto oposto ao banheiro, no lugar costumeiro das roupas limpas; pelo visto, eu havia dormido demais.
“Eu não faço idéia do que você tem em mente”, respondi desinteressada por amor a vida dele. Eu teria que ser uma exímia mentirosa se quisesse vê-lo viver mais alguns anos.
“Quem foi a garota que dividiu o quarto com você ontem à noite? Eu já sei que ela não estuda aqui, então, quem ela é?” Olhei de relance sua testa enrugada e mordisquei uma torrada com geléia.
- O que você quer saber, Bacco? – falei diretamente deixando evidente a minha impaciência.
- Hoje é segunda-feira, caso você não saiba, afinal, seus professores andaram me fazendo queixas da sua falta de atenção nas aulas...
- Você está preocupado com as minhas notas?! – falei exagerando na palavra “notas”.
- Também, mas por hora, eu me contentarei em saber mais sobre a garota; sua amiga. E saber o motivo do garoto estranho que você dançou no bar do Taylor estar parado em frente à porta do seu quarto com a mão na maçaneta segundo antes de eu terminar de subir as escadas no final do corredor. Saber o que ele pretendia aqui antes do nascer do sol e para onde ele foi. Um segundo estava aqui – ele apontou para a porta – e no outro desaparecera completamente.
- Bacco... Caleb... Ele esteve aqui? – o desespero tomou conta do meu rosto. Tentei montar rapidamente uma máscara, mas Bacco não deixaria essa expressão passar.
- Então esse é o nome dele... Sim! Ele esteve aqui e por incrível que pareça, ninguém da Segurança o viu entrar.
- Ele é irmão de Emily, é isso! Deve ter vindo buscá-la. Era só isso que você queria saber? – falei levantando do sofá e abrindo as gavetas da cômoda vinho, procurando uma roupa para que eu pudesse sair do quarto. Troquei a camisola pelo jeans puído e uma camiseta amarela; escovei os dentes e ajeitei o cabelo. Bacco ainda estava sentado no mesmo lugar, imóvel.
- Por enquanto, isso basta! Mas quero lembrar-lhe que seu pai estará aqui para uma visita no final de semana.
Ele deixou o recinto batendo a porta ruidosamente. Eu joguei meus pertences pessoais dentro da primeira bolsa que encontrei, saindo do quarto sem me importar em trancar a porta.
Precisava achar Fabrizio e contar-lhe sobre os novos acontecimentos.
Caleb veio tentar concretizar seus planos; ficou a um metro do meu pescoço, a uma porta de roubar-me a vida.
Ele permanecia brincando, no controle do seu jogo predileto – marionetes - mas eu não iria permitir que o jogo continuasse assim: a seu favor.

Partes 12345678910, 11 e 12.

Leitores, eu quero agradecer de coração o carinho dessa semana. Vocês são ótimos. O Layout novo foi um presente maravilhoso que ganhei visto que ainda sou menininha em HTML. Estou lendo Dom Casmurro do Machado de Assis - que eu amo - e recomendo pela maravilhosa forma com que o autor escreve. Vou responder a todos os comentários, todos. E mando um Mega beijo para Maria Elis - o seu blog me fazia feliz, que pena que acabou. Gostaram dessa parte? Estão gostando do conto?

William Shakespeare.

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Romeu e Julieta:

Segundo Ato - cena VI "Esses prazeres violentos têm fins violentos e morrem em seu triunfo, como o fogo e a pólvora, que ao se beijarem, se consomem. O mais doce mel repugna por sua própria doçura, e seu sabor confunde o paladar. Portanto, ama com moderação; o amor duradouro é moderado."
Quinto Ato - cena III "Permaneço aqui mesmo, aqui, com as larvas que são tuas camareiras. Ah, aqui estabeleço meu repouso eterno e liberto esta minha carne mundana e cansada do jugo traçado por estas estrelas  em nada auspiciosas. - Olhos, um último olhar! Braços, o derradeiro abraço! E, lábios, ah, vocês, portais da respiração, selem com um beijo justo este acordo perene com a morte devoradora."

Macbeth:

Primeiro Ato - cena IV " Estrelas escondam o seu brilho; não permitam que a luz veja meus profundos e escuros desejos. Que o olho se feche ao movimento da mão; e , no entanto, que aconteça! Que aconteça aquilo que o olhar teme quando feito está o que está feito para ser visto."
- cena VII "Que se enganem os outros com nossa aparência mais serena. Aquilo que sabe o coração falso, a cara falsa deve esconder."

Otelo, o Mouro de Veneza:

Segundo Ato - cena I "Vocês mulheres são uma pintura fora da intimidade do lar, guizos na sala de visitas, gato selvagem na cozinha, santas em suas injúrias, diabólicas quando se ofendem; dominam o jogo das lides domésticas e sabem ser assanhadas na cama."

Agradeço a paciência de todos nesses meus dias de configurações. O layout ficou bem diferente dos que eu já usei. Cheio de cores e frufru's, mas eu gostei tanto tanto e de uma forma única ele ficou bem forte e pessoal. Adoro Shakespeare! Desses três o que eu mais gostei de ler foi Otelo. Espero que tenham gostado dos fragmentos que eu selecionei e indico todos os três para leitura. Indico também Sonho de uma noite de verão e O mercador de Veneza.
 
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