Persiana aberta.


Desembrulhei a caixinha preta com fitas cor-de-rosa ainda na cama. Era como se a caixa fosse desmanchar sob o meu toque trêmulo. Sentia o meu medo involuntário do conteúdo e uma vontade de eternizar na memória a cena que eu não sabia direito qual era.
Consegui desvencilhar a caixa das fitas e da tampa absorta da presença ao meu lado lembrando da casa no campo onde morei quando menina.
Das maçãs ainda verdes no pomar e do cheiro do pêssego perfumando a cozinha.
 Em meu sonho, eu corri intrasingente pelo campo com o Sol no rosto e pulei no colo de papai sempre a minha espera no portão com os cavalos selados para a nossa cavalgada.
Mergulhada em um outro mundo, pude ver os bolinhos de chuva na varanda e o aroma do café no bule.
Mamãe estava ali de braços abertos com seu vestido branco enfeitado com joaninhas bordadas e eu estava ali, dando-lhe um beijo pegajoso e repleto de poeira da corrida de cavalo que apostei com papai para ver quem chegaria em casa primeiro; eu ganhei.
Ouvi o tilintar dos talheres de prata, presentes que mamãe ganhara de casamento e que sempre fazia questão de usar nessas ocasiões simples em família, mas que para ela se tratavam de "acontecimentos do ano".
Submersa em mim mesma saboreei tantas outras lembranças que Dona Lulu, minha ama de leite, julgaria ser impossível.
De volta ao quarto, adaptada a intensidade luminosa devido às persianas abertas, analisei o conteúdo minúsculo na caixinha preta, girando-o no dedo anular até absorver cada detalhe e dar risada dos raios de sol que refletiam na parede do lado oposto toda vez que minha mão encontrava um ângulo favorável.
E observando tudo com a cabeça depositada segura em minha barriga e os olhos presos no meu pude compreender a pergunta que ele me fizera no pé do ouvindo minutos antes de eu querer acordar.
- Quando eu fiz onze anos papai me deu um pónei, era tão gracioso quanto desobediente. Sempre venci papai em nossas corridas apostadas. E sempre ganhei um beijo carinhoso da mamãe em cada retorno ao nosso lar. E mesmo agora, aos vinte e oito anos sinto-me cavalgar aquele pónei como na primeira vez. - Falei rindo da seriedade em seu olhar.
E fazendo uma cara maliciosa-desentendida lançou-me um olhar de quem guarda um segredo profundo, aninhando-se no meu corpo e entrelaçando as mãos nas minhas.
E dormiu sobre os meus seios como se a partir de hoje ele fosse comigo até o fim do mundo. E realmente ele iria.

2 Comentários:

Lôoh Toledo comentou:

a que lindo tanto fofo sue texto!
muito meigo e eu amo pônei *--------*

Erica Vittorazzi comentou:

Lindo mesmo. Estas coisas vão conosco para sempre... beijos

 
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