Foi-se.

Valquíria acordou com o ruído de uma porta que se fechava pesadamente lá embaixo, no térreo. Sentiu um medo aterrador paralisar o sangue nas veias, e por um segundo, pensou que seria o fim.
Correu para o canto escuro que lhe era conhecido e enconlheu-se mais que o normal no esconderijo improvisado no terceiro andar. Respirava de tempos em tempos racionando o oxigênio e evitando qualquer barulho, por menor que fosse. Evitava a todo custo mostrar um sinal de vida, se esforçando para sobrevevir a essa manhã. Os ruídos se tornaram pés ligeiros nas escadas do prédio e as vozes que antes estavam abafadas pelas toneladas de concreto, argamassa e tinta soaram como uma marretada no ouvido, um grito agudo de birra infantil.
Mas não eram crianças as pessoas a sua procura. Eram seres humanos, é verdade. Mas como classificar aqueles que tiram vidas, que anulam a voz?
- Militares.
Valquíria respondeu baixinho a sua pergunta mental. Entendia muito bem a política para saber como o sistema funcionava. Sabia perfeitamente o seu destino.
Voltaria a ver alguns rostos familiares, caso fosse presa. Mas era é a líder. Incentivou uma legião de jovens a reivindicarem seus direitos, os fez gritar mais alto que a repressão.
Desde o início da Ditadura ela assumiu um lado. Fora uma criança revolucionária, decida. Não se deixaria intimidar pela luta árdua mesmo que desigual.
A vibração no solo aumentava a cada passo e as respirações estavam ofegantes. Suas opções estavam limitadas: ficar escondida e orar para sair a salvo de mais uma situação difícil; ir presa e morrer rápido antes que a dor física a fizesse trair os companheiros de causa ou tentar fugir, escapar.
- E viva a liberdade!
A surpresa dos oficiais responsáveis pelo caso foi espantosa. Não conseguiram definir, no primeiro instante, o que era perna, braços, unhas, dentes e cabelo vermelho.
Ela lutou com toda a força que possuía nos músculos e usou qualquer artifício que lhe desse vantagem e quando encontrou uma brecha para as escadas, quando o sentimento de vitória começou a inundar seu rosto, foi parada por um disparo, um tiro no coração.

De geração em geração esta história é contada, cantada e escrita.
Dizem que no enterro de Valquíria estenderam uma bandeira vermelha sobre o caixão. Uma bandeira que fora beijada por todos aqueles que lutaram ao lado dela.
E de todas as coisas que ouvi ao longo do anos, essa é a história que mais me marcou.
Na bandeira estava escrito pintado de branco em letras garrafais: - E viva a liberdade!
Só que para mim, a liberdade não existe mais, morreu com ela.

- Essa é a primeira vez que escrevo sobre a Ditadura. Reuni ao longo dos meus dezenove anos muitas informações sobre essa tão nossa verdade brasileira. Quem sabe um dia eu não divido tudo o que sei em formas de textos como esse para vocês? É só me chegar em tiro a inspiração.

4 Comentários:

Natasha Knorst comentou:

Adorei o texto (:

Paulo Dionísio comentou:

E escreva mais sobre querida. Adorei o texto. Muito bom!
Grande beijo.

MED MUCHSTTER comentou:

HEY BELL, não pude ler o seu texto, eu já tenho que sair, mas assim que votar leio TUDINHO! Bem, respondendo ao seu comentário, cópias de palavras é a quantidade de palavras que roubaram. Tipo, quando copiam uma frase nossa, que tem umas 10palavras. Dez palavras foram copiadas, compreende? E ja já volto para te passar o código, ok? Minha AU-AU tá dodoi, preciso levar ao veterinário CORRENDO - Já volto, BEIJITOS, MM

Caroline Rodrigues comentou:

Gooostei!:D

 
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