A valsa!

Acordei saboreando essa manhã como nenhuma outra. Prometi a todas as minhas amigas que eu faria o possível para deixar de lado a minha birra por maquiagem, e colocaria um pouco mais de cor em mim nesse dia tão incomum.
Paul é o meu melhor amigo, meu vizinho, meu parceiro nas aulas de química e o único garoto que tem permissão para frequentar a minha casa. Nos conhecemos há 18 anos, o que representa toda a nossa vida, e sei tanto sobre ele e ele sobre mim que é constrangedor quando conversamos apenas com o olhar.
No mês passado, Paul resolveu quebrar a parede imaginária entre nós. Convidou-me para o baile. Para que eu fosse o seu par em nossa formatura. Ainda deitada na cama, me deixei fixar o olhar no vestido imaculado atrás da porta, preso num gancho. Deixei-me perder dentro dele e a imaginar o momento da valsa.
Ouvi batidas leves na porta e soube, que deste instante até a hora em que o garoto que amo aparecer na sala lá embaixo à minha espera, eu não teria paz. Sem ânimo algum, eu disse as minhas amigas que entrassem. Houve pequenos xingamentos sobre o estado do meu cabelo e certos "ai meu Deus" quando encontraram unhas ruídas. Natalie, Anne e Marie são amigas incríveis. Aquelas que estarão ao seu lado para sempre, e mesmo que você fique despenteada, com unhas estragadas e olheiras; elas ainda irão te amar. Minhas amigas são opostas a mim, mas carregam a mesma simplicidade que possuo. Não sei como isso é possível, mas são tão eu mesma que, por vezes, me assusto.
Nunca passei tanto tempo num quarto recebendo instruções sobre roupas e acessórios quanto hoje. Eu deveria estar desesperada, mas ao que parece, suguei de todas ao redor o auto controle.
- Acabamos! - eu ouvi as três em uníssono.
- Não vai se olhar no espelho? -  perguntou ansiosamente Marie.
Minhas amigas estavam em tal solenidade ... eu não pude contestar.
Encontrei meu reflexo no espelho e por um segundo me contemplei; pude me ver bonita. O vestido branco gelo acentuava minha pele morena e a maquiagem deixou ângulos visíveis em meu rosto no qual eu não percebera antes. Decididamente, eu estava pronta. A campanhia da casa toca e Nath, quase sem fôlego, anuncia que o meu acompanhante me aguarda. Calmamente, degrau após degrau, desço a escada para encontrar a única pessoa que eu desejei ao meu lado nesta noite.
- Alice... - ele disse quando nos encontramos no final da escada. Havia algo em seus olhos e pela primeira vez não fui capaz de decifrar. Minha mãe tirou várias fotografias enquanto seguíamos até o carro dele estacionado em frente a casa. Como um filme adiantado várias vezes, eu vi tudo passar rápido demais: a rua, o estacionamento, a escola, os convidados, alguns amigos do segundo ano e outros formandos como nós dois. Como se meu cérebro estivesse muito mais perspicaz a ponto de estabelecer um só foco ou, totalmente desligado. Não consegui gravar o discurso que alguém fez e nem como cheguei  no palco e peguei meu diploma. Como se, sorrateiramente, pausassem minha mente e somente agora colocaram-me em "play". Percebo que Paul me puxa para dançar e me dou conta do rosto colado, do abraço apertado, dos passos valsados com maestria.
- Alice. - ele me chama delicadamente. Conseguindo conter a força dos seus olhos sobre mim, dou-lhe um sorriso gentil.
- Paul, o que você não me disse em minha casa? - falei sendo casual referindo-me ao enigma em seus olhos.
- Minha pequena Alice, estou cansado de ser seu melhor amigo. - ele disse com tanta convicção que eu não pude evitar engasgar em meio a sua frase.
- Paul... - meus lábios ficaram quietos debaixo do seu indicador esperando que ele terminasse a frase.
- Você não percebe? Estou farto de não poder ficar próximo na intensidade que gostaria, de não ajeitar seu cabelo quando o vento bagunça e de não te colocar presa em meus braços como criança e secar suas lágrimas. Alice, eu não te amo. O que sinto é imensurável. - ele falou sorrindo, descontraído, enquanto me rodopiava no salão abarrotado.
- Paul! Você é que nunca percebeu. - falei entre risinhos exagerados, deixando-me ser conduzida em baile.
Nada mais foi dito. E continuamos aqui, em nossa valsa, rodopiando, rodopiando...rodopiando; eternamente.



 - Edição Temática: Visual / Conto-História -

1 Comentário:

Lôoh Toledo comentou:

muito legal, gostei ><

boa sorte no bloinques ><

 
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