"O meu mês da verdade de Deus."
Olho a borboleta estampada no lençol da cama e penso nas cores dos dias de sol da cidade de ponte baixa e orla de água doce, marola de rio.
Vejo sobre a cama o perdão que nunca tive das injúrias que professei ao céu e dos meus atos pecaminosamente carnais, estendido igual à coberta macia, sob minhas pernas, com cheiro de flores silvestres do amaciante que minha mãe usa.
Arrepender-me das loucuras com paixão e sofrer pelo mal que fiz bem feito será lembrança vaga de uma ação que existiu, por 2 segundos, na memória; sem o devido tempo-espaço de consumir o coração dormente.
Sinto-me honrada mesmo assim. Até quando não permito que os dizeres abençoados do Criador encontrem eco na minha garganta. Até quando não me prostro em martírio eterno por ser leviana.
Ah, menina; sei que compreendes. Tu que assim como eu, enfrenta os teus próprios demônios vestidos de anjos todos os dias.
Não queria me meter com as cordialidades do nosso mundo globalizado, mas ter-te perto enfeitando a tela da minha janela, é bom demais da conta. E sei que em matéria de pecado social andamos juntas.
O teu se dá no amor diferente, e o meu, na solidão dos passos; passos ritmados emparedados por artérias.
Se cartas precisam de selos, essa ficará oculta pelas folhas intactas deste meu mundo alienado. Mantendo a rasura que é marca natural da personagem cuspideira de verbos.
E se carta, esta aqui, não for; selarei os versos com atestado estadual, ansiando o brilho dos teus olhos fundos ao contemplar a força imperativa dos desejos que devoram os dedos corrompidos.
- O perdão vem de Deus e o arrependimento procede do homem. Mas quando não há esse entendimento, é obra de quem? Do diabo?
{Sem destinatário. Fica para os que, assim como eu,
desentendem-se com o perdão e o arrependimento.}





