Protótipo.

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Camaçari, 07 de Outubro de 2010. 
"O meu mês da verdade de Deus."

Olho a borboleta estampada no lençol da cama e penso nas cores dos dias de sol da cidade de ponte baixa e orla de água doce, marola de rio.
Vejo sobre a cama o perdão que nunca tive das injúrias que professei ao céu e dos meus atos pecaminosamente carnais, estendido igual à coberta macia, sob minhas pernas, com cheiro de flores silvestres do amaciante que minha mãe usa.
Arrepender-me das loucuras com paixão e sofrer pelo mal que fiz bem feito será lembrança vaga de uma ação que existiu, por 2 segundos, na memória; sem o devido tempo-espaço de consumir o coração dormente.
Sinto-me honrada mesmo assim. Até quando não permito que os dizeres abençoados do Criador encontrem eco na minha garganta. Até quando não me prostro em martírio eterno por ser leviana.
Ah, menina; sei que compreendes. Tu que assim como eu, enfrenta os teus próprios demônios vestidos de anjos todos os dias.
Não queria me meter com as cordialidades do nosso mundo globalizado, mas ter-te perto enfeitando a tela da minha janela, é bom demais da conta. E sei que em matéria de pecado social andamos juntas.
O teu se dá no amor diferente, e o meu, na solidão dos passos; passos ritmados emparedados por artérias.
Se cartas precisam de selos, essa ficará oculta pelas folhas intactas deste meu mundo alienado. Mantendo a rasura que é marca natural da personagem cuspideira de verbos.
E se carta, esta aqui, não for; selarei os versos com atestado estadual, ansiando o brilho dos teus olhos fundos ao contemplar a força imperativa dos desejos que devoram os dedos corrompidos.


- O perdão vem de Deus e o arrependimento procede do homem. Mas quando não há esse entendimento, é obra de quem? Do diabo?

{Sem destinatário. Fica para os que, assim como eu, 
desentendem-se com o perdão e o arrependimento.}

Complicações.

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"A mente domina a matéria"? - Nem sempre!

Metaforicamente falando, sinto apenas o que vejo.
O calor jovial das crianças que brincam tranqüilas no quintal de casa.
O amor do casal maduro; sobreviventes da banalidade sentimental desse nosso mundo globalizado.
A alegria da mãe passiva, atenciosa ao banhar a cria num dos tantos braços do rio.
Metaforicamente pensando, eu sei ser livre.
Como as moças fogosas que se entregam em paixão descontrolada.
Como o beijo que não escolhe sol nem chuva.
Como os gatos; seres de várias casas, e um só lar.
Ironicamente falando, eu perco o contato.
Deixo os de perto fadados ao meu tempo.
Deixo as responsabilidades pessoais debaixo do tapete do quarto; que apenas é visível para mim.
E o menino do meu coração a dez passos de distância da minha vida.
Ironicamente pensando, eu conheço as falhas.
As minhas, é claro! E a do próximo, também.
Ter um olho dentro de si e o outro no mundo esgota; faltará sempre o interesse na visão que leva a dor...
Uma mulher na idade, nos pensamentos e na fala, entretanto, vive a gritar ao léu a mocidade que não possui.
Pensa que engana o diabo, mas o diabo não é o que se vê refletido no espelho?
Verdadeiramente falando, eu sou louca.
A loucura é o doce do pote de vidro que mais gosto.
O melaço que deixa sujo esse meu canto profundo da boca.
O eterno teor alcoólico do vinho da ceia.
E verdadeiramente pensando, eu já não sinto o que sentia.
Em conteúdo.
Em prazeres.
Em amor.
Em essência.
Nas vivências.
Na mente;
Pelo espírito.


- A loucura que purifica o hálito, sem bastar, em si mesma.
{A própria foto é link do Weit.}

Estação da Lapa.

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Eu vi o menino sentado na velha estação da Lapa,
 cabelo colado no rosto e as lágrimas que escorriam sem pena, 
tingidas de preto. 

Ele me encarou assustado, 
sugando a minha paz, meu amor, meus sonhos. 

Abriu ferida em brasa nessa alma lassa,
 que já não sabia dizer os trens que seguiram viagem, 
as horas do dia, a época do ano; pior, 
eu já não sei dizer quem sou desde então.


Rebeca C. Souza

Woodstock.

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A Kombi verde horrorosa dele esperava estacionada na porta do prédio. Uns 50 anos de uso, carburador furado, bancos gastos agora na cor bege lembrando vagamente a tonalidade marrom, que outrora, deram vida ao interior daquele carro.
A bagagem havia sido arrumada cuidadosamente na quarta-feira, dois dias antes dela precisar partir. O gato de estimação foi deixado aos cuidados da vizinha Maria Lúcia e com o porteiro, a responsabilidade de manter viva a sua samambaia da sorte. Não sabia para onde ele a levaria, não imaginava o que era a tal surpresa.
Abriu a porta logo após as três batidas costumeiras, deu-lhe um beijo no queixo, entrelaçou sua mão direita na mão esquerda do rapaz amado levando consigo a mochila presa no ombro enquanto ele carregava a mala, agora pesada, de viagem.
O elevador sacudiu um pouco, rangeu e seguiu em sua normalidade para o térreo. Conversaram sobre o dia que passaram longe um do outro até aquele momento, o que fizeram logo após os beijos dados ainda em frente a porta do apartamento dela; amenidades...
Ele girou a chave na ignição fazendo o motor roncar alto expulsando uma fumaça preta que encheu, por um minuto, a visão dos dois passageiros despreocupados que sorriam um sorriso quase sem graça da poluição ambiental causada pela Kombi velha.
Deram ali seu primeiro beijo, tiveram ali sua primeira noite de amor; nenhum outro carro os teria feito tão bem apesar das circunstâncias atuais. O moço soltou o freio de mão, afrouxou o pé na embreagem seguindo rumo ao litoral.
Ana delirava com o mar, as ondas quebrando na borda do Atlântico, as várias tonalidades do verde já se misturado ao azul e por estar ao lado do homem que lhe roubava o fôlego apenas com uma piscada de olhos. Delirava com o quanto a pele dele poderia ficar mais nítida a cada novo gradiente de cores dos raios quase findos do sol. Extasiava-se com a mudança daqueles olhos castanho-escuros para os poços rasos de um mel avelã.
Desabotoou um pouco a camiseta permitindo que o vento quente que soprava pela janela aberta em seu rosto fosse o seu alerta para a vida, se morresse ali com ele ao lado e todo o litoral ao alcance; morreria feliz.
Agora entendia o motivo da mochila de Camping, a barraca, o colchão de ar. Ele estava pagando a sua primeira promessa: acampamento; e pelo visto, com juros e correção monetária.
Marcos parou a Kombi 1960 entre os coqueiros baixos, estendeu a esteira de palha sobre a vegetação rasteira, armou a barraca, prendeu a rede.
Deitaram enroscados na rede na velha praia Woodstock, próximos a um punhado de casais, como eles.
Todos permaneceram contemplando a grandeza do pôr-do-sol dos fins de tarde de verão, menos o nosso casal. Eles permaneceram imóveis por muito tempo, protegidos pelo invólucro do amor eterno.


- Eles ainda eram crianças quando se olharam pela primeira vez.
 
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