Eu fico bem na solidão'

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Fechei a porta do armário hoje. Cansei de quem tem os acessos exclusivos de mim.
Minha porta está frágil e frouxa. Todas as vezes que tento fechá-la bem, ela abre ainda mais.
Como num quarto; espelhos, cama, penteadeira, som, computador, bugiganga e armário.
É no armário onde se põe as coisas. É nele que se registram os segredos. Em cada gaveta, em todos os compartimentos.
Hoje não tenho vontade. De nada. De deixar ninguém entrar, mexer, abrir, bater, bagunçar e revirar tudo em tudo até achar, Deus sabe lá o quê.
Acordei sem graça hoje. Eu tenho graça ao acordar! Acordo bela, radiante, feliz da vida; mas hoje não.
Encrustei-me como oriço tocado indevidamente, tão nojentinha como lesma no sal.
Tive sonhos estranhos também. Se os tivesse anos atrás, chamaria-os de revelação, mas nesse meu estado de espírto, não.
Esses sonhos me tomaram a noite, desarrumaram-me a mente, desgataram-me o sono.
Sem paciência, sem atentar para os fatos, sem minha fala entusiasmada. Estou sem...
Eu fico bem na solidão. Fico bem, mesmo. Acostumei-me a ser armário! Fico quieta em mim, até que chegue alguém e abra as portas, visualize bastante o que tem dentro, encontre o que quer usar e depois vá embora fechando a porta levando algo de mim.
Porque armário é disposto, não tem trancas, fundo falso ou passagem secreta. É extamente aquilo que você vê e quando não ver, basta encontrar uma gaveta da sua preferência e procurar.
Como eu disse, hoje, cansei.
Não quero ninguém a bisbilhotar, estragando-me as dobradiças. Talvez, mais tarde, se fizer bastante Sol no quarto, eu abra minha parte já exposta, para um banho de Sol tomar.
Porque no resto; eu fico bem na solidão.

Sangue frio.

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Percorro com meus dedos os contornos da sua pele.
Tento atiçá-lo numa tentativa de ouvir algo ritmado no lado esquerdo do seu peito.
Me assusto com a ameaça implícita no seu tom de voz.
E uma parte de mim morre quando você não está por perto.
Tento manter a calma sempre que vai embora deixando-me na escuridão.
Aprisiono meus mais terríveis pensamentos para que, com todo o seu poder, você não seja capaz de escutá-los.
Estou comprometida, não vê? E por mais que insista, minha vida já não pertence nem a mim e nem a você.
O amanhã é quem dirá.
Beijo seus lábios firmes. Sinto seu corpo no meu, mas falta-me o calor.
Percebo a distância que precisa manter; proteção.
Como se não confiasse, como se não acreditasse. Eu sei guardar segredo.
Ed., eu não consigo encontrar palavras pra dizer que eu estava morta antes de você.
E que, como eu queria, você já me transformou.
Sem notarmos, o meu sangue agora corre em ti e, em minhas veias circula o mais terrível sangue frio.
Apenas neste instante, eu sou você: com um vazio-oco no peito, com uma fome e um enorme desejo, sugando tudo de bom que há enquanto espero que o ritmo de um coração termine de uma só vez.
Porque hoje amor, o humano é você! E por hora, eu sou, a sua mais perigosa e encantadora assombração.


- Edição Temática: Musical -

A valsa!

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Acordei saboreando essa manhã como nenhuma outra. Prometi a todas as minhas amigas que eu faria o possível para deixar de lado a minha birra por maquiagem, e colocaria um pouco mais de cor em mim nesse dia tão incomum.
Paul é o meu melhor amigo, meu vizinho, meu parceiro nas aulas de química e o único garoto que tem permissão para frequentar a minha casa. Nos conhecemos há 18 anos, o que representa toda a nossa vida, e sei tanto sobre ele e ele sobre mim que é constrangedor quando conversamos apenas com o olhar.
No mês passado, Paul resolveu quebrar a parede imaginária entre nós. Convidou-me para o baile. Para que eu fosse o seu par em nossa formatura. Ainda deitada na cama, me deixei fixar o olhar no vestido imaculado atrás da porta, preso num gancho. Deixei-me perder dentro dele e a imaginar o momento da valsa.
Ouvi batidas leves na porta e soube, que deste instante até a hora em que o garoto que amo aparecer na sala lá embaixo à minha espera, eu não teria paz. Sem ânimo algum, eu disse as minhas amigas que entrassem. Houve pequenos xingamentos sobre o estado do meu cabelo e certos "ai meu Deus" quando encontraram unhas ruídas. Natalie, Anne e Marie são amigas incríveis. Aquelas que estarão ao seu lado para sempre, e mesmo que você fique despenteada, com unhas estragadas e olheiras; elas ainda irão te amar. Minhas amigas são opostas a mim, mas carregam a mesma simplicidade que possuo. Não sei como isso é possível, mas são tão eu mesma que, por vezes, me assusto.
Nunca passei tanto tempo num quarto recebendo instruções sobre roupas e acessórios quanto hoje. Eu deveria estar desesperada, mas ao que parece, suguei de todas ao redor o auto controle.
- Acabamos! - eu ouvi as três em uníssono.
- Não vai se olhar no espelho? -  perguntou ansiosamente Marie.
Minhas amigas estavam em tal solenidade ... eu não pude contestar.
Encontrei meu reflexo no espelho e por um segundo me contemplei; pude me ver bonita. O vestido branco gelo acentuava minha pele morena e a maquiagem deixou ângulos visíveis em meu rosto no qual eu não percebera antes. Decididamente, eu estava pronta. A campanhia da casa toca e Nath, quase sem fôlego, anuncia que o meu acompanhante me aguarda. Calmamente, degrau após degrau, desço a escada para encontrar a única pessoa que eu desejei ao meu lado nesta noite.
- Alice... - ele disse quando nos encontramos no final da escada. Havia algo em seus olhos e pela primeira vez não fui capaz de decifrar. Minha mãe tirou várias fotografias enquanto seguíamos até o carro dele estacionado em frente a casa. Como um filme adiantado várias vezes, eu vi tudo passar rápido demais: a rua, o estacionamento, a escola, os convidados, alguns amigos do segundo ano e outros formandos como nós dois. Como se meu cérebro estivesse muito mais perspicaz a ponto de estabelecer um só foco ou, totalmente desligado. Não consegui gravar o discurso que alguém fez e nem como cheguei  no palco e peguei meu diploma. Como se, sorrateiramente, pausassem minha mente e somente agora colocaram-me em "play". Percebo que Paul me puxa para dançar e me dou conta do rosto colado, do abraço apertado, dos passos valsados com maestria.
- Alice. - ele me chama delicadamente. Conseguindo conter a força dos seus olhos sobre mim, dou-lhe um sorriso gentil.
- Paul, o que você não me disse em minha casa? - falei sendo casual referindo-me ao enigma em seus olhos.
- Minha pequena Alice, estou cansado de ser seu melhor amigo. - ele disse com tanta convicção que eu não pude evitar engasgar em meio a sua frase.
- Paul... - meus lábios ficaram quietos debaixo do seu indicador esperando que ele terminasse a frase.
- Você não percebe? Estou farto de não poder ficar próximo na intensidade que gostaria, de não ajeitar seu cabelo quando o vento bagunça e de não te colocar presa em meus braços como criança e secar suas lágrimas. Alice, eu não te amo. O que sinto é imensurável. - ele falou sorrindo, descontraído, enquanto me rodopiava no salão abarrotado.
- Paul! Você é que nunca percebeu. - falei entre risinhos exagerados, deixando-me ser conduzida em baile.
Nada mais foi dito. E continuamos aqui, em nossa valsa, rodopiando, rodopiando...rodopiando; eternamente.



 - Edição Temática: Visual / Conto-História -

Porque deu vontade!

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De não ficar assim, me vendo no passado. E soltar a âncora e deixar meu navio ir a todo vapor.
De passar as horas em frente a televisão comendo pipoca e, ouvir bem ao fundo aquela musiquinha clichê.
Porque deu vontade de sair correndo agora e, te abraçar. De gritar bem alto e, de chamar seu nome.
De ficar lá na minha cama enrolada até o pescoço e, brincar de achar desenho em telha.
Deu aquela vontade de chegar e escrever e, ler outras coisas minhas e outras que não são minhas, mas que poderiam ser.
Porque deu vontade de pegar o telefone e passar trote e, de discar números só pra saber se alguém vai atender.
De comer biscoito com goiabada e, tomar suco de limão.
De dizer sim e de dizer não; estou farta dos talvez.
Só pela vontade. E nada mais.
Vontade de não permanecer parada no mesmo lugar.
Porque deu! E se deu, está dado! Quero ver quem vai tirar?!

Nem está grande coisa, mas deu vontade.
Se deixe matar a vontade hoje,
não fique a espera da vontade do dia seguinte.
Minha dica.
 Beijos
 
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