Saídas

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Coração alienado. Cansado de procurar respostas indiscretas fixou-se em outras amenidades.
Diminuiu ritmo. Baixo fluxo sanguíneo. As veias perderam a cor vital e na pele não há melanina necessária.
Coração alienado! Perde-se em concreto, viga e asfalto. Numa alucinada fúria de alcançar horizontes, numa perspicácia um tanto fugaz. Marca-passo presente. Pela falta de força e como contador de quilometragem.
Coração alienado. Prendeu-se em um amor terreno. Saboreou das delícias do prazer secreto e fundiu-se.
Agora pensa ele que todo dia é dia e continua a querer mais. Alienado! A televisão é seu foco e no gatinho manhoso sobre o sofá descarrega a ânsia de querer companhia. Prisioneiro das próprias ilusões, dos próprios conceitos e fica devaneando no passado bem morto e enterrado.
Como num labirinto. O coração anda, corre, grita. Rasga suas já surradas roupas e continua a prosseguir, porque em labirinto é assim: ou você encontra uma saída antes da meia-noite ou você se perde ali pra sempre e se deixa adormecer.
E quanto a mim, dona deste coração abestalhado, permaneço convicta de que mesmo sem sua presença eu sei que ainda está por aqui.
Meu coração alienado, seu coração alienador.


Abrindo Olhos.

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É incrível como cada amanhecer me traz uma sensação nova. Como se fosse um novo despertar, um abrir olhos pela primeira vez.
Nada permanece como na noite anterior; nem quarto nem mobilha.
Acho graça, sinceramente, ao lembrar que antes de dormir fiquei implorando para que você viesse velar meu sono.
Para que estivesse ao meu lado e que fosse o seu calor, e não o da coberta, que protegesse meu corpo do frio.
Acho graça também por ser tão menina. Isso pode parecer estranho, mas não é!
Viro menininha inocente quando seus lábios tocam os meus e quando sua mão repousa em minha cintura.
E acho mais graça ainda por saber que você consegue ser mais inocente. Tenho certeza que se fosse um outro rapaz, me arrancaria a roupa e o juízo e, os atos eu já não poderia prever.
E dou-me a rir disso. De saber que poderia me ter da maneira que outros desejam, mas prefere me ter de um jeito único e sincero. De um jeito espetacular. Porque para você o importante não é conquistar tudo e sim, conquistar o território devagar. Saboreando, milimetrando.
Como eu disse, é incrível quando eu acordo em plena segunda-feira, cheia de aulas no colégio e resolvo ficar em casa por um desculpa qualquer.
Afinal, são nessas horas de permanecer inerte na cama, que entrego em palavras o meu melhor pensamento.

- Um texto meu para o blog Meu Diário.com.

Persiana aberta.

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Desembrulhei a caixinha preta com fitas cor-de-rosa ainda na cama. Era como se a caixa fosse desmanchar sob o meu toque trêmulo. Sentia o meu medo involuntário do conteúdo e uma vontade de eternizar na memória a cena que eu não sabia direito qual era.
Consegui desvencilhar a caixa das fitas e da tampa absorta da presença ao meu lado lembrando da casa no campo onde morei quando menina.
Das maçãs ainda verdes no pomar e do cheiro do pêssego perfumando a cozinha.
 Em meu sonho, eu corri intrasingente pelo campo com o Sol no rosto e pulei no colo de papai sempre a minha espera no portão com os cavalos selados para a nossa cavalgada.
Mergulhada em um outro mundo, pude ver os bolinhos de chuva na varanda e o aroma do café no bule.
Mamãe estava ali de braços abertos com seu vestido branco enfeitado com joaninhas bordadas e eu estava ali, dando-lhe um beijo pegajoso e repleto de poeira da corrida de cavalo que apostei com papai para ver quem chegaria em casa primeiro; eu ganhei.
Ouvi o tilintar dos talheres de prata, presentes que mamãe ganhara de casamento e que sempre fazia questão de usar nessas ocasiões simples em família, mas que para ela se tratavam de "acontecimentos do ano".
Submersa em mim mesma saboreei tantas outras lembranças que Dona Lulu, minha ama de leite, julgaria ser impossível.
De volta ao quarto, adaptada a intensidade luminosa devido às persianas abertas, analisei o conteúdo minúsculo na caixinha preta, girando-o no dedo anular até absorver cada detalhe e dar risada dos raios de sol que refletiam na parede do lado oposto toda vez que minha mão encontrava um ângulo favorável.
E observando tudo com a cabeça depositada segura em minha barriga e os olhos presos no meu pude compreender a pergunta que ele me fizera no pé do ouvindo minutos antes de eu querer acordar.
- Quando eu fiz onze anos papai me deu um pónei, era tão gracioso quanto desobediente. Sempre venci papai em nossas corridas apostadas. E sempre ganhei um beijo carinhoso da mamãe em cada retorno ao nosso lar. E mesmo agora, aos vinte e oito anos sinto-me cavalgar aquele pónei como na primeira vez. - Falei rindo da seriedade em seu olhar.
E fazendo uma cara maliciosa-desentendida lançou-me um olhar de quem guarda um segredo profundo, aninhando-se no meu corpo e entrelaçando as mãos nas minhas.
E dormiu sobre os meus seios como se a partir de hoje ele fosse comigo até o fim do mundo. E realmente ele iria.

Escristos sobre o Bob - Parte II

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Eu te disse: Não, mistérios não. Só uma coisinha minha, às vezes sua, nossa, de outras pessoas.
Não, mistério não. Só as coisas que ganhamos com o tempo e também coisas que perdemos... coisas óbvias, tão claras e sublimes como água transparente demais para se enxergar.
E você me disse: Hum...

Eu já conheci pessoas frias. Estas não demonstram emoção alguma para com a outra pessoa.
Bem, eu só não imaginei que veria em seu rosto a pior de todas as expressões gélidas. E que sobre mim seria depositado todo esse desprezo profundo.
Uma bela idiota; eu não posso dizer que dou valor a todas as suas caras e bocas. E raramente espero ouvir sua voz explodir de felicidade. Mas era seu aniversário. O primeiro aniversário seu depois do fiasco que fomos juntos. Sinceramente, acreditei em sua boa educação e acabei sendo esbofeteada pela rejeição evidente. Só não esperava, mas está tudo bem agora!
E acho que mereço!
No ano seguinte eu te mandarei uma mensagem, um cartão bem simples e ficarei menos frustrada, assim espero.
De certa forma isso foi bom... a conversa de uns meses atrás e esse seu pé bem grande no meu freio.
Me fez recuar em infinitos sentidos. Não gosto de ser essa tola desorientada. Não gosto nem de pensar na hipótese por mais que eu saiba  que é exatamente assim que eu fico e pareço, mas só às vezes.

E depois de tudo ele volta e diz: Calma amor, é com ternura e com afeto!
 
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